A queda de um anjo

>> quinta-feira, março 03, 2005


Quando eu era um rapaz novo identificava-me de alguma forma com a igreja católica. Fui tendo as minhas dúvidas, como toda a gente, mas sentia-me católico. Uma das pessoas que contribuiram para fortalecer essa sensação de pertença foi um frade Franciscano, a quem chamavamos Frei Nuno Serras Pereira, que tinha uma forma muito informal de viver a religião (achava eu) e que era visita lá de casa. Aliás, casou a minha irmã mais velha, o primeiro casamento da familia, há mais de 20 anos.
O Frei Nuno tinha crescido na Avenida de Roma, adorava motas e, em vez da vulgar cruz que os frades todos utilizavam ao pescoço, usava um pinhão de ataque de uma mota com uma cruz de ferro soldada lá dentro. Tinha uma forma solta de viver a fé e era isso que me atraía. Fartei-me de ouvir da sua boca as clássicas anedotas do J.C., contadas até em ambiente de retiro, coisa que lhe valia umas olhadelas de soslaio dos seus companheiros mais conservadores.
Assisti à sua ordenação, no seminário da Luz e lembro-me de chorar quando o vi deitado no chão a oferecer-se humildemente à igreja.
Hoje, quando liguei o rádio, ouvi uma notícia onde se falava deste padre. Podem ver aqui a noticia do Público.
Como não ouvi falar do Nuno Serras Pereira durante mais de 20 anos, supunha que estaria na mesma. Fui procurar um pouco pela net e o que fui encontrando pinta um retrato que me surpreendeu completamente. Por exemplo, a propósito da educação sexual:
"Pela boca do Ministro da Educação, nas abundantes entrevistas que tem concedido nestes dias, ficámos a saber que se pretende formar para a responsabilidade e que esta consistirá não em prevenir as relações sexuais e em educar para o autodomínio e para o dom de si, por outras palavras, para a castidade, mas sim em “prevenir as doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez precoce” que... irão obviamente aumentar"
Educar para a castidade? Prevenir as relações sexuais?
Se quiserem ver mais artigos interessantes vejam em http://www.santidade.net/artigos.html

A única conclusão a que chego é que o facto de os padres católicos se imporem o voto de castidade está a enlouquecê-los.
Se me sentisse católico antes de ler estes textos, hoje rasgava o cartão de sócio.
Que a igreja defenda a vida na questão do aborto, eu compreendo perfeitamente. Sinto-me nessa matéria bastante conservador. Agora, esta luta pela castidade, até dos casados, só consigo compreendê-la pela inveja que sentem os padres por se terem imposto esse voto.

Deste clube, eu francamente não quero fazer parte.

ZM

6 comments:

Anónimo,  3/03/2005 2:05 da tarde  

Acho que esta noticia é tão absurda que nem merecia comentários, ...admira-me pois que se dê tanta importância a este tipo de mentalidades, mas vindo da Igreja Católica, sinceramente, já nada me admira, ainda por cima, e segundo se disse ontem no telejornal, o tal anuncio custou cerca de 1000€!!! Será que este senhor não poderia utilizar este dinheiro em algo que realmente fosse útil e ajudar quem precise em vez de tentar fazer lavagens ao cérebro?
Susana

Anónimo,  3/03/2005 2:32 da tarde  

Só mais uma coisinha...A Pedofilia também é um gravissimo atentado contra a vida humana e no entanto há "santos padres" que também a praticam. Como tu mesmo dizes Zé, a castidade (suposta e alegada) tem o poder de os elouquecer
Susana

Azenhas 3/03/2005 5:12 da tarde  

Zé Maria, Sabes que a igreja é uma máquina muito grande e poderosa... Tritura tudo e todos até o teu amigo Franciscano. Chocado fiquei eu com o preço das beatificações... sabias que o Vaticano recebe massa cada vez que beatifica mais um santinho? Que Deus nos acuda, pois com estes não vamos longe....

Elsa,  3/03/2005 5:18 da tarde  

Bem, bem, sejamos optimistas: afinal, 400 anos depois da condenação de Galileu à morte, pela Inquisição, a igreja católica lá veio reconhecer que afinal é mesmo a Terra que gira à volta do Sol e não o contrário... Não desesperes ZM, pode ser que daqui a 400 anos a luta pela castidade abrande... Tenho as minhas dúvidas mas nessa matéria sou suspeita, que eu nunca tive cartão de sócia do clube em causa. Para desilusões e amarguras já me basta ser sócia do sporting...

Sara MM 3/03/2005 5:46 da tarde  

Pois não me desiludi!!!
Nunca estive iludida! eh!eh!
Graças a Deus (OPS!?) os meus pais escolheram por mim, e por isso nunca tive nada a ver com esse clubinho poderoso.
Bem... já li uns textos em missas, mas foi só porque era Verão e a malta nova estava toda na praia (claro!), excepto eu e uma amiga à qual os pais sempre impingiram tudo (mesmo a fé!?). E como lhes deu geito nem se preocuparam a mínima sobre as minhas fés ou costumes!??!
enfim... essas histórias ficam bem é no "NO COMMENTS"!

Quica 3/05/2005 12:39 da tarde  

Se para ti é estranho, imagina para mim. Como tu, também eu cresci na fé cristã e também tive as minhas dúvidas. Quando chegou a "altura de optar", conheci um grupo de frades franciscanos que, entre outras coisas, me fizeram ver a religião católica como uma coisa boa e em que valia a pena acreditar. Tinham uma forma simples de ver o mundo e, na prática, eram pessoas que cativavam pela sua maneira de ser e de estar no mundo. Um desses frades é o Nuno e, sempre lhe conheci as ideias sobre o aborto e outras questões relacionadas. Penso que cada um tem as suas convicções e ele tinha as dele. Deviam ser respeitadas como as de qualquer outra pessoa. O que nunca pensei foi que ele chegasse a extremos tão radicais em relação a essas mesmas ideias. Uma coisa que ele me ensinou foi que Deus perdoa sempre, que o Seu Amor é infinito. E ele, como padre, como reagiria se alguem se lhe fosse confessar e lhe dissesse que já tinha feito um aborto? Deus perdoria mas, e ele? A julgar pelo que publicou diria que não. Estranho, não é? De qualquer maneira, não devemos medir tudo pela mesma bitola...

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Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

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