Arquitectura - Casas bioclimáticas.

>> sexta-feira, março 11, 2005

No momento de comprar uma casa, costumamos pensar demasiado em aspectos que, no imediato parecem fundamentais, mas que no longo prazo poderão não ser os mais importantes. A maioria das pessoas não se lembram ou ignoram detalhes que são a diferença entre uma casa confortável e uma outra onde é impossível viver com qualidade.

Em primeiro lugar temos que pensar que uma casa é um local DENTRO do qual vamos viver. Tal como as plantas, para nos sentirmos bem, precisamos de determinadas condições de:
1. Espaço
2. Luz
3. Temperatura
4. Humidade
Precisamos também de outras coisas, mas essas não são da responsabilidade de quem construiu a casa que vamos habitar.

As condições mencionadas acima estão dependentes de um conjunto de características da casa, de que frequentemente ninguém parece lembrar-se:
A forma da casa e a sua orientação solar – uma casa com 2 andares tem melhor rendimento térmico do que uma casa térrea. A relação volume/superfície exterior é sempre maior numa casa de 2 andares, pelo que as perdas térmicas são menores nestes casos. Todas as casas deviam ter a sua maior área exterior virada a Sul. Os maiores vãos deveriam estar desse lado, ficando os vãos mais pequenos na fachada Norte. Desta forma aproveita-se simultaneamente a luz e o aquecimento proporcionados pelo Sol a Sul e reduzem-se as perdas térmicas pela fachada Norte, sempre mais fria.
O isolamento das paredes – é muito mais eficaz, do ponto de vista térmico, colocar o isolamento das paredes no exterior, do que no interior ou entre 2 paredes. Desta forma, consegue-se que a inércia térmica das paredes (que estão à temperatura do ambiente interior) reduza as variações da temperatura interior, mesmo quando no exterior há variações maiores.
Variações térmicas no interior, em função da forma como é feito o isolamento.

As superfícies que sejam iluminadas pelo Sol, sobretudo no Inverno, devem ter massa térmica, para acumularem o calor e manterem a temperatura interior sem variações.
Os grandes vãos da fachada Sul devem ser sombreados de forma a que no Verão estejam à sombra e no Inverno ao Sol. Os estores devem estar do lado de fora das janelas, para permitirem sombreamento total das janelas no Verão, impedindo-as de aquecer o interior.
A circulação de ar dentro de casa pode ser promovida de diversas formas: Junto aos grandes vãos da fachada Sul deverão haver zonas de comunicação entre os 2 andares da casa, chamadas de duplo pé direito, e as escadas de ligação entre os 2 pisos deverão estar junto à fachada Norte. Assim o ar aquece na fachada Sul, subindo, e desce pelas escadas, a Norte, onde arrefece. O ar é forçado a circular dentro de toda a casa, de forma natural. Deve haver janelas de bandeira que possam estar abertas, mesmo quando não há ninguém em casa. Preferencialmente, para aproveitar e promover o sentido de circulação de ar já falado, deve haver aberturas no topo da fachada Sul e na parte baixa da fachada Norte. Isso fará o ar entrar pelo Norte e sair pelo Sul, refrescando a casa no Verão.
O aquecimento do Sol pode ainda aproveitar-se de uma forma muito eficaz utilizando paredes Trombe, mas disso falarei noutra ocasião.
Devem evitar-se pontes térmicas com o exterior, sejam de que tipo forem. As janelas com cantaria de pedra podem ser muito bonitas, mas levam o calor da casa direitinho para o exterior, pelo que devem ser evitadas. Se conseguirmos que todas as superfícies interiores estejam à temperatura do ar dentro de casa, não haverá condensação de humidade nas paredes.

Podem dizer-me que, se seguirem todas estas regras, a casa dificilmente ficará bonita. Talvez tenham razão, pelo menos na opinião de alguns, mas gostos não se discutem. A verdade é que, quando compramos uma casa é para viver e não para mostrar aos amigos ou contemplá-la do exterior, pelo que deveríamos dar mais importância aos aspectos funcionais do que estéticos.

Pessoalmente, talvez porque me interesso por este tipo de construção há alguns anos, gosto mais deste tipo de casas do que da clássica moradia português suave, que se vê tanto por aí.

Como felizmente moro numa casa de construção bioclimática, que nem sequer é das melhores, uma coisa posso garantir-vos: este conceito funciona perfeitamente e só com muito sacrifício me sujeitaria a morar numa casa “tradicional”.

Se quiserem procurar mais informação sobre o assunto, podem começar por aqui --> ou seguir os links falados no post de arquitectura anterior.

Sigam as pistas, saiam do armário!

ZM

5 comments:

Quica 3/12/2005 2:16 da tarde  

É por todas essas razões que sou, como tu, adepta das casas bioclimáticas. Só tenho pena de ainda não poder estar a morar numa mas, ainda não perdi, de todo, a esperança. Quem sabe não acabaremos vizinhos? Beijinho

daniel 3/14/2005 8:56 da manhã  

Pois é, o problema deste tipo de construção é que exige de quem constrói um conheciemnto e uma sensibilidade que a maior parte dos nossos construtores não têm e quando têm fazem-se pagar por isso como se o aproveitamento climático fosse coisa para elites. Já só falta que a publicidade à porta dos edifícios diga: Acabamentos de luxo: - jacuzzi, vídeo de porta e aproveitamento bioclimático. Uau!

Outro pormenor é que este conceito nasceu no norte da europa em que há muito menos sol do que aqui e portanto todo o que puder ser "agarrado" é bem vindo. Aí sim o aquecimento é um problema sério com gastos energéticos muito significativos. Aqui há que pensar a sério no arrefecimento das casas, bem mais difícil do que o aquecimento. Se pensarmos que os raios solares no verão estão muito mais perpendiculares à terra (em Portugal) do que no inverno o que acontece a uma casa que está preparada para ser aquecida pelo sol quando temos 35ºC no verão? Eu sei que há soluções como o sombreamento de modo a que o sol não incida directamente nas fachadas no verão e o faça no inverno mas não são milagrosas. Deixo aqui este desafio.
Outro tema que me apoquenta é que com esta coisa do "esteticamente correcto" deixaram de se colocar estendais no exterior dos edifícios pois ninguém gosta de ver as cuecas do vizinho a esvoaçar penduradas no 6º andar. Vai de colocar secadores de roupa dentro de casa e os tugas que paguem a factura. Este inverno (salvo seja) em que as barragens não têm produzido nem 50% do que deviam devido à falta de chuva ainda há quem não ponha a roupita cá fora. Imaginem o que era de Alfama sem as cordas de roupa penduradas nas varandas? As cuequitas de gola alta e as ceroulas ao lado dos lençóis às florinhas fazem as delícias de turistas e vendedores de postais.

Somos portugueses e temos sol, vamos aproveitá-lo!

Anónimo,  2/08/2010 4:24 da tarde  

Eu também sou fã destas construções, mas não tenho informação. Eu vou construir uma casa em breve, se alguém me ajudar em alguma informação, eu agradecia.

Cumprimentos, Nuno

Anónimo,  2/08/2010 4:25 da tarde  

o meu mail: nunovale25@hotmail.com

Anónimo,  5/23/2011 9:41 da tarde  

Olá! Sou aluno da Faculdade de Arquitectura da Universidade (FAUP) do Porto e lendo este texto sobre casas bioclimaticas, percebi que existe pessoas que já começam a tentar transmitir algumas informações sobre este tema e a importância que dele surge. Como futuro arquitecto e aprendiz de todos estes temas tenho a dizer que è com muito orgulho que digo: a minha faculdade se empenha a divulgar estas temáticas. Porém, tenho de discordar relativamente a determinados assuntos sobretudo no que diz respeito, aos últimos parágrafos: em primeiro lugar a forma da casa como a sua beleza são um factor importantíssimo para nos sentirmos confortáveis nas nossas casas, assim como a ambiente e os sentimentos que os espaços nos proporcionam, logo discordo completamente quando afirmam ("na opinião de alguns"), que nestas condições ou regras bioclimaticas tornem a casa menos bonita. É da competência de um desenhador, neste caso arquitecto, tornar a casa bela e espaços confortáveis, com a presença destas condições que refere no texto, entre outras. Do mesmo modo que não considero que os "gostos não se discutem", pois se eles focem fruto de ignorância a arte não existiria. Assim como, considero que sendo a casa fruto da arte de um arquitecto, segundo a lógica básica de todas as artes, deve ser apreciada, principalmente pelos amigos. Porém, concordo que esse prazer não se deve limitar à fachada, que durante muito tempo era o rosto principal de uma casa na sua análise crítica. Para terminar, creio que a ideia que concebeu de casa tradicional, não é a mais indicada, pois estas são fruto de uma história de raiz de um determinado local, assim sendo, usam desde à muitos anos características para se adaptarem ao local, consoante as condições disponíveis na época, como é o caso dos materiais (provenientes do local onde se implantam) e da sua orientação (e localização, fruto de uma sabedoria popular riquíssima da qual ainda muito temos que aprender). Assim, e se analisar com mais atenção as "casa tradicionais", certamente não achará nenhum “sacrifício” residir nessas casas, até pelo contrário. Porém a demite que muitas vezes se confunda os conceitos de "casas do que da clássica moradia português suave" com casa tradicional. Espero que ter sido explícito e assertivo na minha critica e que isto contribua para o entendimento da importância da casa bioclimatica, assim como a importância da funcionalidade aliada à estética.

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Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

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