Gonçalo Cadilhe

>> domingo, março 20, 2005

O Gonçalo Cadilhe é um daqueles cronistas de viagem que me fazem ferver o sangue com os seus textos. Escolheu uma forma de vida que muitos gostariam de ter tido a coragem de seguir. Se tivesse a certeza de que tinha várias vidas, começava já a projectar uma em que não faria mais nada além de viajar. Nesta, por força de outros objectivos que me são vitais não vou poder fazê-lo, por isso são tão importantes as crónicas do Gonçalo Cadilhe. Encontram-nas no Expresso, todas as semanas.

Actualmente o Gonçalo está num dos locais mais belos de todos os locais do mundo. Trata-se da Patagónia, com o seu clima instável e com as suas fantásticas montanhas. Werner Herzog chamou-lhes "gritos de pedra". O Cerro Torre, que vemos aqui na foto, é simultaneamente uma das mais belas montanhas do mundo e uma das mais inacessíveis.
Olhando o Fitz Roy, Gonçalo escreve:
"O "grito de pedra" provoca-me uma absurda vertigem ao contrário. Enquanto a atracção pelo abismo consiste no pensamento de se atirar para o fundo, aqui, eu luto contra o pensamento de estar lá no topo. Olhar do sopé para o cume perturba-me tanto como chegar à orla do precipício: o arrepio de horror que me percorre a espinha é idêntico."
Gonçalo falou com uma cordada que vinha de escalar o Cerro Torre e que tinham tido a sorte de o ver iluminado pelo nascer do Sol, coisa rara naquelas paragens, devido à imensa instabilidade do clima. Perguntou a um deles:
"Como é viver na própria pedra esse milagre de luz?"
Ele respondeu, rindo:
"apetece-te beijar a montanha."
É a primeira vez que vejo alguém que não é alpinista ou escalador falar assim das montanhas.
Na crónica da semana passada, Gonçalo escreve:
"Recordo-me de um conto de Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços, sobre o pequeno Diego, que não conhece o mar. Um dia, o pai leva-o à praia: "E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de formosura. E quando por fim conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: 'Ajuda-me a olhar'".
Sei que ficarei igualmente embasbacado, no dia que vir com os meus olhos estas montanhas que o Gonçalo nos tem dado a ver.
Gonçalo: obrigado por me ajudares a olhar.

Vão passando por cá.

ZM

6 comments:

Sara MM 3/20/2005 3:27 da tarde  

Maravilha....
Maravilhas...
Maravilhada...

Percebo bem e julgo mesmo já ter sentido essa tal "vertigem ao contrário".
Apesar de ainda não ter estado em locais tão "imponentes" como o Cerro Torre, sinto-o cada vez que avisto algo que é o mais imponente que já vi até então - ou que precisei de ajuda para ver!

Costumo (tentar) definir em sentimento por "enorme/gigante pequenez".

Quica 3/22/2005 10:47 da manhã  

ZM, obrigado por me ajudares a olhar. Bj.

Azenhas 3/22/2005 9:50 da tarde  

uso as palavras da quica... Obrigado por me ajudares a olhar, Zé Maria.

Anónimo,  3/23/2005 4:40 da tarde  

Zé,
A certeza de viveres outras vidas não a tens, mas pelo que acredito da teoria da reencarnação, e pela forma como vives a vida, acho que sim: tens "graves" possibilidades de vires a viver outras vidas.
S. Capela

Anónimo,  8/01/2005 8:22 da manhã  

Caríssimo,
Grande escolha! Grande Livro!
Devemos passar a mensagem! :)
Sarita

sushi lover 9/06/2005 11:37 da manhã  

:D
Também eu gostava de andar sempre de mochila às costas... Mas as experiências a conta-gotas são melhores. É óbvio que o Cadilhe não perde a capacidade de deslumbramento, que é o que enriquece tanto a sua escrita, mas nem todos são assim... Uma vez conheci 2 australianos que andavam a dar uma volta ao mundo. Estávamos a caminho de Estocolmo e eles tinham estado recentemente em Nova Iorque. Fascinada perguntei: "E que tal? Como é Nova Iorque?"... Ao que um deles encolheu os ombro "oh! é como outra cidade qualquer"
Há que saber dosear a quantidade de novidade, não achas?

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Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

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