Nenhum Olhar

>> sábado, agosto 20, 2005

Ontem vi, finalmente, em DVD, o Million Dollar Baby. Já me tinham soprado que o filme não era propriamente doce, mas não esperava que deixasse no final um tão fundo sentimento de absoluta tristeza. Já o genérico ía no final, ainda eu chorava copiosamente. Fiquei com uma sensação de absoluta falta de esperança, sem qualquer sinal de redenção ou de compensação. Só me lembro de uma outra obra me transmitir sentimento semelhante: o livro Nenhum Olhar do José Luís Peixoto.
Não vou falar mais do filme, porque haverá quem o não tenha visto aínda, mas para quem, como eu, já passou por essa prova, vejam lá se estes excertos do Nenhum Olhar não vos lembram o Million Dollar Baby, como se tivessem sido escritos para ele:
Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros. Ainda que o peso do meu peito seja custoso, qual é o peso de um abismo? ainda que me sinta um cego a crescer sem olhos para um percipício, tenho de me levantar desta cama. Tenho de levantar estes braços que não são meus, tenho de levantar estas pernas que não são minhas, mas de um rochedo(...). Mesmo que seja para sofrer, sofrer, tenho que ir de encontro àquilo que serei, por ter sido isto e não poder fugir, não poder fugir de me tornar alguma coisa(...).
O munco acabou e nem o tempo prosseguiu. A morte não existia no meio de todas as coisas mortas. Não existiam os cadáveres. Tinha morrido a memória da morte. As crianças morreram e isso, que era a única coisa pela qual valia a pena chorar, não era lamentado por ninguém, porque já não havia dor, já não havia lágrimas, já não havia olhos ou peito para chorar.
O mundo acabou. E não ficou nada. Nem certezas. Nem sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar.


Quando vejo filmes assim questiono-me se faz sentido sofrer assim, por interposta pessoa. Deitou-me um bocado abaixo, mas acho que ficou guardado no departamento dos filmes inesquecíveis. Somos uns bichos mesmo estranhos.

Quem viu este filme? Quem leu o Nenhum Olhar? Será que vos acertou em cheio na caixinha dos humores?

Um resto de bom fim-de-semana, se for caso disso.

ZM

PS: Tough ain't enough.

2 comments:

daniel 8/20/2005 3:33 da tarde  

Eu vi o filme e comecei a ler o livro mas não consegui chegar ao fim e talvez o teu post de hoje explique bem o porquê da minha desistência.

Um abraço à espera de um encontro.

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras 8/20/2005 8:36 da tarde  

Eu vi o filme e tal como aconteceu consigo, também eu chorei copiosamente, mas vale a pena ver filmes assim, em que ainda existem sentimentos incondicionais e o ultrapassar do próprio "eu" em prol de "outro"...Também senti desespero e falta de esperança, mas no dia seguinte senti que a esperança invadiu o meu ser, pois passei a acreditar que, ainda existem neste mundo umbiguista, relações incondicionais de amor e de amizade.
Sem dúvida...um excelente filme...a guardar na prateleira e na memória.

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Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

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