Aires Mateus

>> segunda-feira, outubro 24, 2005


Foto feita por mim dentro de uma maquete da casa de Alenquer, na exposição do CCB

Tenho com a arquitectura dos irmãos Aires Mateus uma relação complicada. Acho os projectos inovadores, belíssimos do ponto de vista formal, mas por mais que procure entendê-los, nunca ou quase nunca consigo imaginar-me a habitar os espaços que inventam. Tenho-me identificado mais com os edifícios públicos (Bilbioteca / Centro de Artes de Sines, Reitoria da Universidade Nova de Lisboa) do que com as casas particulares.

Reitoria da Universidade Nova de Lisboa

Eu, como muitos dos leitores já saberão, gosto de casas viradas para a rua, gosto do Sol dentro de casa, gosto de poder descansar a vista no infinito da paisagem sem ter que ir ao exterior. De resto, como também já referi noutras ocasiões, dou muita importância aos ganhos solares e ao arejamento natural das casas, razão pela qual sou defensor dos conceitos bioclimáticos de grandes vãos a Sul, Sol directo no interior durante o Inverno, janelas em todos os compartimentos, etc. Ora, a arquitectura dos Aires Mateus é o oposto desta lógica de habitar. É frequente encontrarmos volumes sem qualquer abertura directa para a rua, dando todas as janelas para pátios. Encontramos frequentemente projectos em que as casas de banho, embora encostadas a paredes exteriores, não têm janela. Assim, embora a arquitectura Aires Mateus me fascine pelas formas, pela escultura, pela beleza, repugna-me em tudo o que é funcional.
Alguns exemplos:
Na Casa de Alenquer, os arquitectos aproveitaram os muros da ruína existente e construíram a casa nova lá dentro. Muitas das janelas da nova casa dão para os muros (com 2 andares de altura) da ruína anterior. A própria piscina está entaipada nos muros da ruína. Parece-me que são raras as janelas de onde podemos ver a rua a não ser por breve relance, num ângulo muito estreito. No entanto, se pusermos de lado o desconforto que essa situação causa (pelo menos a quem como eu precisa de ar e espaço aberto) a casa é de uma rara beleza. Já recebeu alguns prémios.

Foto do exterior sufocante da casa de Alenquer

Na casa Barreira Antunes, no Alentejo, temos mais uma vez um elegante volume cego a decorar a paisagem, mas eu não queria lá viver.
Na casa de Azeitão, construíram uma casa dentro de um armazém de vinhos. Para isso penduraram os quartos todos junto ao telhado, deixando a área do chão totalmente aberta. Pareceu-me de início um conceito revolucionário e interessante, mas acontece que os volumes pendurados são todos cegos. Quase não têm janelas para o exterior e, sobretudo, não têm aberturas para o interior, além das portas de acesso. Não consigo evitar sentir-me sufocado dentro deste tipo de espaço.

Foi com grande expectativa que me dirigi ao CCB para tentar compreender melhor estes projectos que me causam tanta confusão. O que lá encontrei foi uma exposição muito bem montada, mas que quase nada acrescentou ao que eu já conhecia do trabalho desta dupla. As maquetas apresentadas são umas belas esculturas, mas deviam ser acompanhadas por muito mais informação exposta para se tornarem didáticas. Algumas delas representam o negativo do espaço da casa, mas isso não é muito fácil de entender. As plantas têm umas zonas a negro, de difícil leitura e cujo critério não consegui atingir. Praticamente não estão expostas fotos ou alçados. Ficamos sempre sem saber como é que aquilo será ou está construído de facto.

Parece-me que esta arquitectura merecia uma apresentação mais cuidada e talvez mais virada para o público comum. Num país em que por todo o território pululam como cogumelos os exemplos do português suave, parece-me que se devia tentar tornar este tipo de exposição mais abrangente. Quem não esteja muito motivado para os modernismos da arquitectura não vai sair deste evento muito convencido. Acho que foi um mau serviço prestado a um par de arquitectos que, a julgar pela aceitação internacional, merecia muito mais.

Eu esperava ter saído do CCB reconciliado com a arquitectura dos Aires Mateus, mas fiquei na mesma ou pior. Talvez me falte algum conhecimento académico, mas estas não são definitivamente as minhas casas de sonho.

Se for caso disso passem por lá e depois venham cá dizer-me em que é que eu estou errado.

ZM

6 comments:

Mana +,  10/24/2005 4:21 da tarde  

Num pais onde o sol està presente durante 3/4 do ano e onde se pode "viver" no exterior quase tanto, é deveras estranho o trabalho destes arquitectos ...
Aprecio as tuas fotos, mas como tu preciso de janelas e portas para viver ... Preciso de Luz !
Como eu costumo dizer : não sou toupeira !

Lourenço 10/27/2005 10:33 da tarde  

o conhecimento que te falta infelizmente não é académico.... é artístico

Carlos 12/05/2006 3:46 da tarde  

O conceito explorado pelos arquitectos encontra-se no que é cheio e no que é vazio, na forma como eles se relacionam e se agarram. Daí encontrares em quase todos os desenhos manchas negras e manchas brancas por oposição, eles trabalham exactamente nesse limite, criando algumas ilusões. Em nenhuma das casas e espaços projectados pela dupla vais encontrar falta de luz natural, não encontras é grandes vãos voltados para a rua, porque não lhes interessa revelar tudo de mão beijada. Se tiveres prestado atenção aquele volume quase cego no alentejo vais perceber que eles valorizaram o nascer e pôr do sol, tornando aquelas duas únicas aberturas para o exterior como algo sublime (pelo menos é o que eles dizem)
De resto são arquitectos que valorizam a pureza e racionalidade "poetica" dos seus volumes.

(espero ter ajudado em alguma coisa)

Realmente podiam ser mais "simpaticos" para com o público no geral.

Carlos 12/05/2006 3:48 da tarde  

esqueci-me de referir que por razões térmicas não recomendo grandes vãos orientados a sul, pelo menos no alentejo.

redhot,  1/03/2007 9:22 da manhã  

O que a casa de Alenquer tem é excesso de luz.
As janelas e portas são bastante grandes.
E está virada para fora, mas não para a rua.
O jardim até tem, de um plano superior, boa vista para a rua.
O espaço imaginado é bastante interessante.

Mas o projecto também tem os seus problemas...

Anónimo,  1/16/2007 5:34 da tarde  

estudo arquitectura ja a 3 anos e ja dei comigo a pensar que o mal dos arquitectos e lhes terem dito que a arquitectura e uma arte!!!...

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Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

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