A espera do fotógrafo

>> sábado, maio 29, 2010

Uma das principais diferenças de ter um filho aqui em Angra, relativamente aos outros dois que tive em Lisboa, está no papel que deixam o pai desempenhar.
Aqui, o pai não serve para mais do que fazer o filho e levar a mulher ao hospital. Depois, deverá ir dormir para o carro ou calmamente para casa, que logo o avisam quando a criança nascer.
Como devem imaginar, não me apetecia nada representar o papel que me estava reservado.
A mãe entrou na maternidade às 3:00h da manhã, mas eu fiquei no corredor, acompanhado como documentam as fotos abaixo.
DSC_2378

DSC_2380

DSC_2381

DSC_2383

DSC_2384

Bem sei que não são estas as fotos que alguns dos meus leitores queriam ver neste momento, mas eu sinto-me ultrajado nos meus direitos de pai e apetece-me desabafar.
Não tive outro remédio senão ir para casa quando percebi que a dilatação ainda iria demorar umas horas. Às 9:00h da manhã estava de volta ao mesmo corredor e fiz saber que lá ficaria até que me chamassem para partilhar com a minha mulher o processo todo do parto.
Parece que lhe disseram que eu não queria arredar pé e acabaram por ser bastante tolerantes e simpáticas, deixando-me ir quebrando "as normas". Tive a impressão (poderei estar enganado) de que fui o único pai a assistir ao parto naquele dia. Posso dizer que foi o parto mais difícil que fiz, porque a mãe não quis epidural (da última vez a coisa não tinha corrido bem). Posso ainda dizer que a mãe foi uma verdadeira heroína e que me honra muito ter tido o privilégio de ser o pai dos seus três filhos. Percebi que a coisa, desta vez, doeu um bocado, mas ela aguentou estoicamente e eu quero crer que a minha presença foi determinante para ela.
Aqui fica também uma homenagem fotográfica à personagem deste dia:
DSC_2386

Fala-se muito por cá da questão da violência doméstica. Eu acho que é todo o papel da mulher que está muito pouco valorizado e que é daí que vem o mal. A forma como o pai é posto fora da maternidade não contribui um cêntimo para alterar este contexto. Penso que este tipo de mudança social tem que ser conduzido de cima para baixo (top down) e o hospital tem um peso muito importante nessa acção. Percebo que num local onde poucos pais me parecem interessados em ser mais que condutores do carro que leva a mãe à maternidade, o hospital não esteja preparado para os "modernos", mas o contrário também é verdade: num hospital que não facilita, não me parece que o número de pais interessados em participar vá aumentar. É uma pescadinha de rabo na boca.
Sabem quanto tempo tem o pai para visitar o seu filho? Dois períodos por dia: das 15:00h às 16:00h e das 18:30h às 19:00h. Como querem que o pai se envolva nestes primeiros dias e nos cuidados da criança? É impossível dar-lhe banho ou mudar-lhe uma fralda com uma visita de hora e meia por dia. Sendo o meu terceiro (e supostamente último) filho, apetecia-me mais do que nunca poder gozar estes dias iniciais da sua vida, mas isso aqui está-me totalmente vedado. Sinto-me verdadeiramente prisioneiro de costumes que considero totalmente anacrónicos.
Não podia deixar de dizer isto aqui.
Uma última foto, que é a vista do quarto onde eles estão neste momento, como se estivessem na cela de uma prisão.
DSC_2392

PS: já tenho mais uma carrada de fotos, que partilharei mais logo.

11 comments:

Anónimo,  5/29/2010 8:48 da tarde  

Parabens Zé por mais um herdeiro e por tudo ter corrido bem malgrè tout...

Joao Ciclone

Tibério Dinis 5/29/2010 9:31 da tarde  

Parabéns ao Simão, levarei comigo algumas frases para citar.

one more shoot 5/29/2010 11:31 da tarde  

Como te compreendo Zé. Quando a Leonor nasceu passei pelos mesmos momentos, no mesmo hospital. À medida que ia lendo este post encontrei muitos pontos em comum com a tua experiência.
Abraço.

MaRo 5/30/2010 1:48 da tarde  

Realmente, que vida essa ai !
Mais uma vez parabéns !
E continua as fotos, que gostei das primeiras !

Fatyly 5/30/2010 7:11 da tarde  

Que atraso de vida e ainda os continentais se queixam.

Para se mudar mentalidades demora séculos...mas marcai a diferença, porque a meu ver se não apresentarem a vossa opinião ao Ministério da Saúde nada mudará.

Nana 5/30/2010 8:55 da tarde  

Pois é mesmo "retrogado" !
Como pode ser que o pai não possa entrar e sair quando quer ??? Uma maternidade não é uma prisão !
Aqui em França até podes ficar a dormir no mesmo quarto que a tua mulher ! e assistir a todo o trabalho de parto e ao nascimento (salvo se uma cesariana se apresenta)
Tens razão em dizer que os primeiros momentos são primordiais para criar laços !
Assim que toda a familia estiver de volta a casa logo se resseram !
Parabéns mais uma vez e mil beijinhos cheios de saudades !

Pedro Caldeira 5/31/2010 9:43 da manhã  

Parabéns para ti e para o resto da família.
Como te compreendo, a mim não me passaria pela cabeça não estar 24 horas junto à minha mulher e ao meu filho nestes dias tão importantes e felizes, o que felizmente aconteceu.
Não consigo perceber a falta de humanismo nos hospitais, pois o que estão ali a fazer tem tudo a ver com humanismo, mas normalmente esquecem-se de algumas partes.
Mas também a qualidade arquitectónica do edifício não ajuda, pois para mim a qualidade dos edifícios onde fazemos as nossas actividades também ajudam aso serviços prestados, etc...
Parabéns e abraços
Pedro Caldeira

Álex 5/31/2010 9:58 da manhã  

a foto das traseiras do hospital parece a de um anexo de Caxias... que arrepio!
com o panorama da oferta educativa e hospitalar assim, exemplos no meio de tantos outros (alguns melhores seguramente), falam em descentralizar... eu admiro quem faz a vossa opção e vai para tão longe da capital, eu não creio tivesse coragem

Álex 5/31/2010 9:59 da manhã  

uppsss, o que devía ter dito 1º: PARABÉNS!

mário venda nova 6/04/2010 7:00 da tarde  

Zé Maria,

um bom conjunto de fotos de bom preto&branco.

Apesar de não ser pai reconheço validade nas tuas queixas que deixam transparecer um atraso nas mentalidades de quem gere um hospital moderno. Sinceramente se o pai tem a certeza que tem capacidades para assistir ao parto o hospital deve-lhe dar o acesso necessário para que o possa fazer.
Mas terminou tudo bem e isso, para já, é o que interessa, sobre o resto reflectimos depois.

Um abraço,

mário

Zé Maria 6/04/2010 7:03 da tarde  

Mário,
Obrigado pela tua apreciação das fotos. Ando sempre de máquina às costas e não podia deixar de aproveitar a oportunidade.
Um abraço.
ZM

Enviar um comentário

Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

  © Blogger template Simple n' Sweet by Ourblogtemplates.com 2009

Back to TOP