Benasque IV

>> quinta-feira, julho 21, 2005

Tínhamos ido para os Pirinéus com um objectivo concreto na mochila: ascender os 2 cumes mais altos daquela cadeia, o Aneto e o Posets.
O primeiro, como sabem, já estava aviado. Faltava o outro. Assim, lá voltámos nós a deixar o parque de campismo que nos servia de campo base e arrancámos em direcção ao refúgio de montanha Angel Orús, de onde partiríamos no outro dia para ascender ao Posets, com 3.375m de altitude.
Depois de um acidentadíssimo percurso de automóvel chegámos a um estacionamento no meio da montanha, de onde se começa a subida a pé para o refúgio. A mim calhou-me, mais uma vez, transportar a Madalena "a espaldas", o que torna a subida duplamente mais cansativa. É que além do peso da criatura, tenho que ir sempre a contar histórias, tentando simultaneamente controlar a respiração.
Mal começámos a subir encontrámos esta cascata que sai de um pequeno lago num acidentado leito de rio.

Algumas histórias mais acima, fizemos uma pequena paragem para trocar a água às azeitonas e aproveitei para fotografar esta espécie de alcachofra violeta que enchia a beira do caminho.

Demorámos cerca de 2 horas, se não me engano, a chegar ao tão ansiado refúgio. Lá do alto, a vista é magnífica.

Este refúgio, ao contrário do da Renclusa, é bastante luxuoso. É o primeiro que vejo com duche nos quartos. Isso é tão raro, que as pessoas nem levam para cima o equipamento de higiene, pelo que não me parece que os duches sejam lá muito utilizados.
A sala de jantar tem uma saída para um terraço sobre o vale, de onde se avistam as inúmeras cascatas que irão alimentar o rio que vimos mais abaixo. Aqui fica um aspecto dessa sala, depois do jantar.

A comida, por outro lado, era verdadeiramente má. O jantar funciona em regime de self-service, cada um com o seu tabuleirinho com toda a refeição, da sopa à sobremesa. Habitualmente nos refúgios trazemos para a mesa uma terrina de sopa, e travessas com a comida. Com o sistema dos tabuleirinhos a distribuição da comida tem muito mais entropia (para não dizer que é um perfeito granel).
Fomos deitar-nos cedo, porque amanhã é dia de trabalho.
Estávamos num quarto com 12 pessoas e meia (a meia era a Madalena). Alguns minutos depois de tudo ter acalmado, ouve-se uma voz:
- Pai
- Sim, filha
- Está bué de escuro…
Gargalhada geral na cama corrida dos portugueses. Os restantes devem ter-se questionado o que teria dito aquela amostra de gente.
Às 5:00h da manhã toca o Suunto do Daniel e ala moço, vamos comer torradas.
Quais torradas? Aqui apenas tivemos direito a tostas embaladas e pouco mais. Um refúgio tão bom, gerido por gente tão antipática e mal disposta.
Fomos os primeiros a fazer-nos ao caminho. Lá fomos seguindo as indicações, que até determinado momento são absolutamente evidentes.

Acontece que este cume fica nas imediações do GR11 e a subida ao cume apanha grande parte de uns percursos laterais a este GR. Daí as marcações.
Nesta altura, o Daniel teve um apelo intestinal, o que seguido de um pequeno engano no caminho, nos fez perder a dianteira da expedição.
Um pouco mais acima, voltámos a ver nascer o Sol no meio das montanhas. Este é um dos mais belos momentos de uma ascensão deste tipo.

Começámos a subir por uma garganta que se chama "Canal Fonda", onde havia bastante neve, pelo que tivemos que batalhar um bocado até superar esse troço. Na descida haveríamos de utilizar as ferramentas de gelo para passar por este local com mais velocidade.

Aqui já estamos quase no final deste extenso canal.

Restava a pior parte. É preciso subir um ombro que leva por uma crista até ao cume do Posets, mas todo este troço é feito sobre calhau solto, ao longo de uma encosta muito íngreme. Quando cheguei ao topo estava mesmo nas últimas.

Tirámos as fotos da praxe no cimo do monte, observámos tudo à volta, fotografámos os outros com as máquinas deles (coisa que acontece em todos os cumes onde vai muita gente), comemos umas barritas, bebemos água e ala, que se faz tarde.

Quando abandonámos o cume, já vinham dezenas de pessoas a subir, lá muito em baixo. Uma das vantagens de começar bastante cedo é este enorme prazer (quase mauzinho) de estarmos de volta quando os outros ainda vão a caminho. Nós sabemos o que os espera e somos sempre alvo da inevitável pergunta:
- Falta muito?
- Não, é já ali (nunca se desanima as pessoas, tão perto do final!)

Quando chegámos ao refúgio, soubemos que as moças tinham sido postas na rua, para limpeza do mesmo. Irra que os homens eram mesmo mal dispostos. Se o Posets é bastante interessante como cume, além de estar num local muito bonito, já este refúgio não o recomendo a ninguém.
Existe outra forma de ascender o Posets, pelo vale de Estós. Parece que é bastante mais dura, mas só para evitar o refúgio Angel Orús, deve valer bem a pena o sacrifício.

Estamos quase de volta a casa.
Não percam o final desta aventura nos Pirinéus.

ZM

3 comments:

Sara MM 7/25/2005 12:15 da tarde  

Parabéns pelos 2 cumes!!!!!!!!!!!

E mais uma portuguesa se riu que nem uma desalmada com essa saida da Madalena, nesses fabuloso quartos multipessoas! Ninguem ressonou? Que sorte!!!

Pois, até na montanha as coisas mais luxuosas sao as mais M...

bjs e boa estadia por terras quentes!

jordi 7/25/2005 3:48 da tarde  

Olá Zé!

Oh pá, essa vossa miúda é uma delícia!

Olha, e o pre-suunto do Daniel era alguma coisa de jeito, ou só servia para acordar às 5 da manhã (um osso duro de roer, portanto)?

Um abraço

Azenhas 7/29/2005 7:53 da manhã  

Grande post Z!!!

Foi o mesmo que ir contigo, sem me cansar a subir!

:-)

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Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

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