Um relato só com palavras, por enquanto

>> domingo, setembro 11, 2011

Ainda a "quente", aqui fica uma breve descrição do que foi o percurso de ontem, de Porto Martins à Serreta. Acordei às 5:00h da manhã, noite cerrada, comi flocos de aveia com leite, meti no carro tudo o que já tinha preparado de véspera e siga. Apanhei o Miguel na Praia uns minutos antes das 6:30h, e seguimos para Porto Martins, onde já me esperava o Magalhães, que foi a única pessoa que aceitou corajosamente acompanhar-me nesta aventura. O Magalhães, ao contrário de mim, não tinha treinado especificamente para esta actividade, nem sabia concretamente o que o esperava, embora seja um corredor muito forte. Iniciámos a corrida por volta das 6:40h, percorrendo calmamente a marginal de Porto Martins, até entrarmos na Canada do Serra. Estes primeiros quilómetros revestiram-se de alguma ansiedade, pelo menos para mim que sabia bem o que tinha pela frente. A palavra de ordem, durante os primeiros 20km é poupar. É preciso poupar tudo ao máximo. Por muito que as pernas e o entusiasmo nos peçam velocidade, o que está para a frente exige-nos que travemos. Mesmo assim, fomos mais rápidos do que eu previra. Pomo-nos à conversa e quando damos por ela já vamos mais rápido do que a estratégia deste tipo de percurso exige. Encontrámos o nosso apoio no local combinado, enchemos as garrafas de isostar e ala, até à Agualva. Nesta secção devemos ter sido particularmente rápidos, porque quando chegámos à Igreja da Agualva, não tínhamos ainda o apoio à espera. Aproveitei para beber o café da manhã, trocámos de ténis (porque a secção seguinte era muito trail e muito encharcada), recuperámos ali uns minutos e vamos embora. Até aqui tínhamos feito pouco mais de meia maratona, caminhando nas subidas mais empinadas. Estávamos com pouco mais de 2 horas, incluindo as paragens. À entrada da Agualva, tive umas dores na parte de trás do joelho esquerdo, mas com a paragem e a mudança de terreno que se seguiu, passou completamente e não voltou a dar sinal até ao fim do percurso. A subida da estrada até à base do Pico Alto tem um grande desnivel, pelo que tivémos que passar à marcha sucessivas vezes. Finalmente, entrámos completamente no mato para o troço mais complicado em termos de terreno, o trilho que sobe da base do Pico Alto ao ombro de onde se avista a Rocha do Chambre. Este trilho está completamente fechado pela vegetação e é relativamente difícil de encontrar à medida que avançamos. Quem não conheça o percurso facilmente desiste por não encontrar o trilho. O terreno é muito encharcado, com muito declive, coberto de vegetação, mas acabámos por chegar ao planalto de onde já se avista o resto da ilha para Oeste e este foi o momento de maior prazer do percurso. Desde este planalto há uma descida longa, muito suave, em terreno de montanha, que leva até à Caldeira da Rocha do Chambre. Correr este troço, só por si, valeu todo o esforço do resto da corrida. Nesta altura já teríamos cerca de 35km nas pernas. Quando chegámos à estrada de terra que leva à Bagacina, senti-me muito positivo e com muita vontade de continuar. Claro que as pernas já iam dando claros sinais de fadiga, mas o que pior já estava feito. Deste ponto até à subida final para a Lagoinha da Serreta fomos sendo acompanhados pelo Miguel, já corri sem mochila e o percurso desce um bom bocado, atravessando a floresta que cobre a área Norte da Serra de Santa Bárbara. Íamos fazendo as subidas a passo e as rectas e descidas em corrida entre os 6:30/km e os 5:15/km, mais coisa menos coisa. O cansaço era já muito evidente, com algumas dores nas pernas, mas cada vez mais motivados com a proximidade do pórtico da meta. Finalmente, já com mais do que uma maratona nas pernas, temos a subida para a Lagoinha da Serreta, uma rampa de terra batida com um declive radical, que terá cerca de 1km ou pouco mais de distância. Foi o castigo final. Chegados ao alto desta estrada, a cerca de 760m de altitude, já só faltava rebolar até ao santuário da Senhora dos Milagres, mas o meu companheiro de diáspora já não conseguia correr a descer. Neste tipo de percurso, mais do que tudo conta a habituação a longas distâncias e isso ele não tinha. Lá fomos descendo a passo, até chegarmos ao alcatrão, onde voltámos a correr. Entrei na Serreta a rir às gargalhadas, como me acontece sempre. Passadas quase 24 horas estou fino, sem grandes dores, sem um andar novo, sem mazelas. Corremos mais de 53km, durante 6:45h, incluindo as paragens, subindo mais de 1800m (de acordo com o relógio). Foi a minha mais longa corrida de todos os tempos e só posso dizer que, em lugar de me saciar, inflamou-me o vício. Neste momento já começo a pensar na próxima. Uma última nota final: inventar um objectivo duro, na corrida ou noutra coisa qualquer, investir nesse projecto e finalmente alcança-lo é uma coisa que toda a gente devia ir fazendo com regularidade ao longo da vida. Enche-nos de satisfação e fortalece-nos. Um grande obrigado ao Miguel, sem o qual esta aventura tinha sido praticamente impossível.

7 comments:

Miguel Bettencourt 9/11/2011 1:19 da tarde  

Zé, não tens nada que agradecer. Foi um prazer dar-te algum apoio, assim como ao João Magalhães. Juntei o útil ao agradável, que é como quem diz aproveitar para fotografar sempre mais um pouco da ilha - daí a distracção em relação ao atraso até ao segundo ponto de apoio, na freguesia da Agualva. :)

PS: Sou testemunha de que o Zé chegou ao destino às gargalhadas.

CAP CRÉUS 9/11/2011 8:38 da tarde  

Muitos Parabéns!
É assim mesmo!

MOX 9/12/2011 12:01 da tarde  

Parabéns Grande Zé!
Lembrei-me de ti no dia do UT. Ainda bem que correu como esperavas e que alcançaste o objectivo a que te tinhas proposto.
Abraço,
Emanuel

Magalhães,  9/14/2011 10:16 da tarde  

Olá grande amigo,eu estou bem!Recuperei no domingo,segunda feira voltei ao trabalho,foram 55 minutos calmos,dei continuidade nos dias seguintes.Estou pronto para outra.Obrigado Zé Oliveira,és um grande atleta com muita esperiencia e com espirito de sacrificio muito elevado.Gostei de ter acompanhado,desculpa de te ter desiludido na parte final do percurso,a dor já era grande na parte inferior dos joelhos,a descida era muita eclinada.Quanto ao Miguel so tenho que agradecer todo o apoio que nos deu,muito obrigado Miguel.

Zé Maria 9/14/2011 10:24 da tarde  

Não tens nada que desculpar. Eu não teria feito tal coisa: embarcar numa aventura de 53km, sem ter sequer feito uma maratona "normal" antes e sem treino específico.
Obrigado pela corajosa companhia.
Abraço.

Miguel Bettencourt 9/15/2011 4:50 da tarde  

Magalhães:
O não tens nada que agradecer, fi-lo com gosto, com o mesmo com que te conheci pessoalmente.
Mostraste muita coragem ao entrar nesta aventura sem te teres preparado convenientemente - como se diz na nossa terra: É d'Homem!
Abraço

Álex 9/28/2011 9:24 da manhã  

parabéns por mais um objectivo alcançado!

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Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

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