Chuva dissolvente

>> segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Na escalada em rocha as vias que escalamos são linhas concretas, equipadas para o efeito, baptizadas com um nome próprio e classificadas segundo uma escala de dificuldades que é subjectiva, empírica e aberta, mas que nos serve para tentarmos ultrapassar os nossos limites sucessivamente. Houve um tempo em que pensava que escalar 7a me chegava, mas agora que ando por lá já só penso no 7a+ ou no 7b (mais difíceis evidentemente). Ao contrário do surf, as nossas ondas são de rocha, mudam pouco ao longo do tempo e ficam como reptos eternos até que os resolvamos. Eu tinha um destes desafios, estacionado no Algarve, à minha espera, após algumas tentativas anteriores frustadas.
Este fim-de-semana, como resultado de um convite endereçado a algumas dezenas de escaladores, juntou-se um pequeno grupo de 11 resistentes à intempérie numa excursão ao Barrocal Algarvio, mais propriamente à falésia da Rocha da Pena. Era lá que eu tinha o tal espinho encravado no currículo.

A Rocha da Pena é um lugar que vale uma visita só por si. Para nós, que trepamos rochas, é um paraíso. O interior do Algarve é um primo afastado do outro Algarve, abandonado do lado de lá da serrania, mas é actualmente o único que vale os 16.30 Euros da portagem. Povoações como Salir, Alte, Benafim, valem mais do que Albufeira, Vilamoura e todos os Portimões juntos.

A falésia da Rocha da Pena dá-nos um olhar de pássaro sobre a paisagem algarvia, desde o tranquilo interior até à cosmopolita linha da costa. O silêncio é total e cheira a alfarroba, figos, amêndoas e plantas silvestres.
Logo no Sábado, depois de um aquecimento, e após ir buscar gelo ao café para por num tornozelo aleijado numa queda imprevisível, tentei a tal via que me andava atravessada há tantos anos.
O ritual que antecede a escalada de uma via que queremos encadear (escalar sem dar nenhuma queda) é quase religioso. Ligamo-nos à corda, e com isto ao nosso companheiro de escalada; calçamos as apertadíssimas botas; verificamos o saco de magnésio; revemos dentro da cabeça os movimentos que teremos que conseguir resolver; respiramos fundo e, com algum jeito, concentração e sorte, entramos no flow. O flow é um estado mental de absoluta concentração no problema que temos pela frente. Quando se consegue atingir o flow atinge-se o ponto mais alto da escalada em rocha, tornado-a extremamente gratificante. Parece que tudo se passa dentro da cabeça e parecemos planar sobre as minúsculas saliências da rocha, progredindo até ao topo da via como se não tivéssemos peso.
Desta vez, entrei profundamente no estado de flow e voei até ao top da via sem qualquer esforço aparente.

O grupo que se juntou este fim-de-semana foi um cocktail perfeito de pessoas diferentes. O resultado foi um dos mais divertidos e produtivos fins-de-semana de escalada dos últimos tempos.
Jantámos em Alte e tivémos de sobremesa uma divertida peça de teatro de borla. A assistência total eram 21 pessoas, das quais 8 eram o nosso grupo. O número total de actores era quase equivalente à assistência toda junta. É pena continuar a constatar que o povo português gosta mais de ver as trapalhadas da TVI do que saír de casa para qualquer outro programa. Em Espanha, a povoação de Alte sería mais um dos seus hiper turísticos Pueblos Blancos. A escassos quilómetros da costa, aquela é uma área tão bela quanto esquecida e abandonada. O que será de Portugal daqui a 50 anos?

As fotos não mostram lá muita escalada, mas foi o que se arranjou.

Se quiserem ler outras versões da história, consultem os blogs:
http://lojadoxines.blogspot.com/
http://v-duro.blogspot.com/
http://blogstrawberry.blogspot.com/

Se forem para aqueles lados, percam um dia de praia e vão visitar a zona de que falo. Não se arrependerão.

ZM

1 comments:

Hewaz 2/22/2006 12:57 da tarde  

bom relato...
temos de marcar outro encontro, mas desta vez sem diluvio!!!

xau xau

(nao ando a conseguir enviar as fotos devem de ser muito pesadas, depois marcamos um dia e eu levo um cd para ti)

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Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

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