Pirinéus 2007 - parte 1 (revista e aumentada)

>> terça-feira, julho 10, 2007

Quando, em Abril de 2006, estive pela primeira vez no vale de Ordesa e subi ao seu cume – o Monte Perdido (3.355m) – fiquei irremediavelmente apaixonado pelo Parque e decidi que haveria de lá voltar assim que fosse possível, com o pretexto de pisar mais alguns dos seus cumes de mais de 3.000m de altitude, mas igualmente interessado em conhecer os inúmeros percursos que serpenteiam no seu interior.

Tendo escolhido para companheiro desta aventura um atleta de triatlo (David Vaz), e tendo eu próprio colocado grande empenho na minha preparação física, quando chegámos ao momento de decidir o que queríamos fazer acabámos por forçar um pouco a barra e seleccionámos um programa tão exigente fisicamente quanto apertado em termos de calendário.

Em linhas gerais, o objectivo era montarmos o quartel-general no parque de campismo San Nicolas, no Bujaruelo, no final do vale com o mesmo nome, e desde aí empreendermos duas saídas de três dias cada, que nos fariam passar pelos cumes do Vignemale, Cilindro de Marboré e Monte Perdido. Os troços de ligação eram um extra, como intervalos turísticos entre objectivos desportivos, e constituíam uma verdadeira surpresa, uma vez que desconhecíamos com rigor os tempos e esforços que envolveriam.

A partida de Lisboa revestiu-se de uma pesada dose de stress, já que ambos estávamos embrulhados numa teia de assuntos por resolver que quase nos faria desistir. Finalmente, embora com algum atraso, passámos a ponte Vasco da Gama (que nome sugestivo para quem parte em busca de aventura!), respirámos fundo e começámos a engolir asfalto em direcção a uma das mais belas regiões dos Pirinéus. Dormimos a primeira noite já em Calatayud, perto de Zaragoza, e voltámos a seguir viagem em direcção a Torla, no dia seguinte. Este seria o último contacto que teríamos com a civilização durante os próximos dias e não se pode considerar uma povoação particularmente cosmopolita. Enfim, sempre tem Multibanco e rede de telemóvel, luxos que não teríamos em qualquer outro dos locais por onde andámos nos dias sucessivos.
Comemos um bocadillo con queso, bebemos a Coca-cola da praxe, levantámos dinheiro para pagar os refúgios e telefonámos às respectivas famílias para os prevenir da nossa futura ausência de contacto.



Minutos depois estaríamos a entrar no vale de Bujaruelo, onde se situa o camping San Nicolás, perdendo de imediato contacto com as redes de telemóvel. É um local paradisíaco para quem aprecia montanhas. Seria este o nosso quartel-general, mas naquele dia nem sequer montámos tenda. Limitámo-nos a preparar as mochilas que levaríamos para os próximos 2 dias, deixámos o carro estacionado junto ao refúgio e iniciámos a caminhada que nos levaria ao bivaque com que inaugurámos a estadia naquelas montanhas. O Bujaruelo situa-se a 1.338m de altitude e o nosso objectivo era ir dormir a um pequeno refúgio livre, chamado Cabaña de Cerbillonar, que se situa em pleno Vale do Ara, a cerca de 1.800m de altitude. Tínhamos portanto cerca de 500m de desnível a vencer nesse fim de dia. Percorremos uma parte do famoso GR11 que atravessa todo esse belíssimo vale e chegámos ao nosso “hotel” em cerca de 2 horas.



No momento em que chegámos à Cabaña ainda nos restavam algumas horas de luz, além disso havia um par de velhotes que iria igualmente pernoitar naquele lugar, pelo que decidimos iniciar a subida da via que pretendíamos fazer e dormir um pouco mais acima nalguma plataforma que encontrássemos.

O Vignemale é considerado francês, embora nós tenhamos subido pelo lado espanhol. Crê-se que terá sido conquistado pela primeira vez em Agosto de 1792, pelo lado “normal”, que é a partir da barragem de Ossoue (mas não necessariamente pela via que hoje se considera a normal), subindo o glaciar, que naqueles tempos estaria muito mais espesso e perigoso do que hoje. Em 1837 Cazaux e Guillembet conquistariam o Pique Longue quase por acaso e desceram para o Vale do Ara, descobrindo assim uma via sem gelo. Abria-se aqui uma possibilidade comercial, pelo que decidiram vender a expedição a Ann Lister, que a subiu pela primeira vez em Agosto de 1838. Uns dias mais tarde voltaram a vendê-la como “primeira” ao grupo do príncipe de la Moskowa, que acabou por dar nome à via. Parece que a trafulhice acabou nos tribunais, mas Ann Lister ficaria com menos glória dando nome apenas ao Collado Lady Lister por onde nós próprios chegaríamos ao glaciar de Ossoue. A via, essa ficou para sempre com o nome Príncipe de La Moskowa. Em 1861, Henry Russell conseguiria passar o glaciar de Ossoue, em 1870 subiria a montanha pelo corredor de Cerbillonar, muito próximo da via que fizemos. Em 1880 esta mesma personagem, agora já claramente enfeitiçada pela montanha, começou a querer dormir nela. Escavou várias grutas a que hoje se chamam grutas del Cerbillonar (bem no alto da montanha) e Bellevue (estas no local onde na altura terminava o glaciar, umas centenas de metros abaixo do limite actual). Em 1989 a Comission Syndicale de Barèges outorgava-lhe uma concessão sobre o maciço, por 100 anos, tornando-o definitivamente o Senhor do Vignemale.

A via que escolhemos é uma das poucas que existem do lado espanhol desta montanha (o lado Sul) e é muito longa e pouco frequentada. Desde a cabaña de Cerbillonar são precisos vencer 1.500m de desnível, por isso, tudo o que subíssemos naquele dia, ou seja na véspera da ascensão propriamente dita, já nos pouparia algum esforço no dia seguinte. Acabámos por subir cerca de 200m e decidimos pernoitar na coisa mais plana que conseguimos encontrar, ou seja um pedaço de terreno cuja planura estava mais próxima de uma montanha russa do que de uma mesa de bilhar. Jantámos uma deliciosa refeição liofilizada da Decathlon, bebemos muita água (tanta que na manhã seguinte teríamos que andar a encher garrafas num dos inúmeros ribeiros que escorrem por aquela vertente – água mais pura não há), enfiámos os sacos de dormir dentro de uns sacos impermeáveis chamados sacos de bivaque, escorámos o corpo com pedras para não rebolar pela encosta abaixo e passámos uma noite divertida a tentar manter o equilíbrio. Fui acordando de vez em quando, mas posso dizer que dormi bem (dentro do género). Da última vez que abri os olhos, já a luz da aurora começava a iluminar os cumes, reparei com alguma tristeza que as nuvens tinham enchido o céu. De um momento para o outro, como se alguém lhe tivesse pegado fogo.



Comemos o nosso cocktail de pequeno-almoço, que se trata de uma mistura de Corn Flakes com Cerelac, numa proporção estudada cientificamente para dispensar o leite. Assim, basta juntar água quente e temos uma bela papa pronta a comer. De seguida empacotámos tudo outra vez nas mochilas e começámos a ascensão.
Conforme íamos subindo o nevoeiro ia-se adensando. As referências que tínhamos da via não passavam de manchas cinzentas, o que retirava alguma beleza à subida ao mesmo tempo que acrescentava perigo de nos perdermos. Comecei a pensar que era a primeira vez que subia uma montanha nos Pirinéus sem encontrar vivalma pelo caminho. No preciso momento em que este pensamento se dissipava oiço um som “artificial”. Era, nem mais nem menos, um outro alpinista que caminhava na nossa direcção. No meio do nevoeiro acabámos por nos juntar e trocar impressões sobre a via. O outro alpinista era francês, estava sozinho (ir sozinho para aquela via com as condições climatéricas que entretanto surgiram é de Homem com H grande) e também tinha bivacado ali por perto. Comparámos os valores dos altímetros, as cartas topográficas e as descrições que tínhamos da via. Sabíamos que à altitude a que estávamos (cerca de 2.700m) deveríamos encontrar um corredor à nossa esquerda, mas como não tínhamos a certeza, devido ao nevoeiro, tivemos que subir mais uns metros até batermos na imensa massa de rocha a que chamam Marmolera. Voltámos a descer e tomámos o único corredor que conseguíamos ver. Nenhum de nós 3 fazia ideia se era o bom corredor ou não. Um pouco acima, na neve dura encontrámos marcas de um único par de crampons (as ferramentas de bicos que colocamos nas botas para podermos andar sobre a neve com segurança), provavelmente (esperávamos nós) de alguém que passara uns dias antes e que saberia o que estava a fazer. Embora tivéssemos connosco um alpinista solitário que ignorava por onde decorria o corredor da Moskowa, intuímos que aquele que nos tinha precedido era um alpinista experimentado e conhecedor.
Seguimos a única pista que tínhamos e fomos parar a uma curta chaminé de rocha, difícil de vencer com aquelas botas e com mochila às costas. Ultrapassada essa chaminé (em que acabámos por não usar cordas nem qualquer outro equipamento) voltámos a colocar os crampons e seguimos a tal pista que subia por um extenso e empinado corredor de neve.
Conforme íamos ganhando altitude sentíamos o vento cada vez mais intenso, até que desembocámos no Collado Lady Lyster, a cerca de 3.200m de altitude e parecia que se tinham aberto todas as janelas do mundo. Ou talvez alguém fizesse anos e aquele fosse um sopro cósmico no final dos parabéns a você. O melhor terreno que me podem dar em montanha são os corredores de neve. Parece que fiz aquilo toda a vida. Por essa razão fui o primeiro a sentar-me no Collado, no meio do vendaval, meio a rir, meio a chorar, não sei se de alegria por ter chegado ao glaciar d’Ossue (já quase o cume da montanha) ou se de tristeza por não ver mais que uns escassos 10 ou 15 metros de distância.
Tínhamos na ideia, se o tempo estivesse de feição, seguir pela crista até ao Pique Longue (que é o cume do Vignemale, com 3.298m de altitude), juntando assim à caderneta mais 3 cumes com mais de 3.000m. Mas o tempo definitivamente não estava para graças e decidimos seguir um “carreiro” que nos levava na direcção onde supúnhamos que estaria o desejado cume. Um pouco adiante encontrámos uma verdadeira excursão de trombalazanas (expressão do David), todos ligados por uma corda e conduzidos por um velho guia francês. Iam ver as famosas grutas do Russell,. Claro que esta pandilha tinha subido pela via normal, que não sendo propriamente um passeio, comparada com o que tínhamos acabado de fazer é perfeitamente acessível. No entanto não posso deixar de destacar o tipo de gente que se vê por lá, no alto das montanhas. Há de tudo, velhos e novos, magros e gordos, experientes e saloios, mas o facto é que estão lá e não nos centros comercias ou a praticar o lusitano mappling.
O guia deu-nos algumas dicas sobre como encontrar a trepada final para o cume da montanha e continuámos a subida. Quando cheguei à crista, que leva finalmente ao cume, o vento tinha-se tornado um túnel de testes da Ferrari e no meio daquela colossal ventania começo a ouvir um daqueles “Merde!” ditos com total convicção. Era o nosso companheiro gaulês que praguejava por ter deixado voar a carta, o guia e o altímetro. Pela minha parte, tendo em conta a intensidade do vento, não sei como não voei eu próprio.
Lá fomos cuidadosamente até ao Pique Longue, tirámos as fotos da praxe e regressámos ao glaciar tão depressa quanto possível.
O tempo estava tão radical que não consegui fazer fotos com a máquina digital compacta. Apenas tirei uns slides. Aqui ficam as fotos do cume, digitalizadas a partir dos slides. A qualidade não é das melhores, mas foi o que se arranjou.


Eu e o David, no cume do Vignemale


O David e o Emanuel (o nosso companheiro temporário)



A "destrepada" do cume para o glaciar

Dizem que a vista do cume do Vignemale é das mais belas que se podem ter nos Pirinéus, mas é raro, muito raro ter essa sorte. Eu acho que aquela montanha é mimada e gosta de ter gente em cima, então nunca deixa ver a vista para o pessoal ter que voltar. A verdade é que, por mim, já estou na fila dos candidatos a repetentes. Desta vez não vi rigorosamente nada além de uma espessa mancha de nevoeiro e uma ventania que não julgava possível, mas ela não há-de ficar a rir-se. Garanto que voltarei.
Finalmente descemos os 3 pela via normal, seguindo os rastos que se vêem sobre o gelo do glaciar. No meio do nevoeiro acabámos por ir parar demasiado à direita, o que nos obrigou a mais algumas manobras para conseguirmos chegar ao caminho correcto. Um pouco mais abaixo, já fora do glaciar, o nosso caminho e o do Emanuel (o nosso companheiro temporário) separaram-se. Nós seguimos a meia encosta na direcção do refúgio de Baysselance – o mais alto dos Pirinéus, a 2.651m de altitude – e o Emanuel desceu o vale na direcção da barragem de Ossoue, onde tinha deixado o carro.



Nessa noite fomos brindados com a maior ventania que presenciei em toda a vida. Fora do refúgio o ar movia-se com uma velocidade, uma energia e um rugido que faziam temer pela segurança do nosso alojamento.



Só pela manhã o vento se acalmaria, deixando finalmente entrever por entre as nuvens restantes, um pouco do glaciar e, a espaços, o próprio Pique Longue.







Descemos calmamente até à barragem de Ossoue (1.830m de altitude), onde voltaríamos a encontrar o Emanuel, que seguiria de carro para Gavarnie, de onde voltaria a entrar nas montanhas, enquanto nós seguimos em direcção ao Puerto de Bernatuara (2.238m de altitude), a caminho do Bujaruelo. Esta passagem de montanha é palco de uma acção tradicional que deve ser um verdadeiro espectáculo: La Cita Del Paso de Las Vacas por La Bernatuara. Para não perderem os direitos sobre os pastos de Ossoue, os ganadeiros do vale de Broto fazem subir as vacas todos os anos, até à referida passagem fronteiriça. Depois bebem uns copos na companhia dos colegas do outro lado. Dizem que é impressionante ver centenas de vacas subirem os cerca de 1.000m de desnível que levam do Bujaruelo ao Puerto de Bernatuara. Quem visite estes pastos a partir do final de Julho encontrará gado espanhol a pastar erva francesa.

Nós tivemos que subir todo o Vale de La Canau (500m de desnível), olhando regularmente por cima dos ombros para nos despedirmos do encantador Vignemale, à medida que nos aproximávamos da cabeceira do vale.








Na passagem do Puerto somos brindados com a belíssima vista do lago de Bernatuara, a 2.300m de altitude e, logo depois, do barranco de Sandaruelo que nos guiará até ao Bujaruelo, cerca de 1.000m abaixo.





Já bem no fim da jornada, quando as pernas já não estão para grandes graças, perdemos o caminho e fomos dar ao lado errado do Barranco de Lapazosa, o que nos obrigou a subir de novo para voltarmos a encontrar o percurso. Faltavam “apenas”cerca de 350m de desnível, que custaram mais do que todo o resto do percurso.



De volta ao Bujaruelo, escolhemos um pedaço de camping que não tivesse muita bosta de vaca e montámos a tenda para essa noite. Cozinhámos uma deliciosa bolonhesa de seitan, devidamente regada com vinho tinto alentejano e comemorámos assim o sucesso da primeira parte da nossa semana pirenaica.







Na manhã seguinte voltámos a preparar as mochilas para 3 dias de diáspora. Antes de partir, submergimos no rio Ara, sob grandes pedregulhos, uma garrafa de vinho branco com que comemoraríamos o sucesso da segunda parte, quando voltássemos de novo a este local.
Arrumámos tudo novamente dentro do carro, incluindo a tenda, despedimo-nos do refúgio com uma saborosa bica e fizemo-nos de novo ao caminho, na direcção do Puerto de Bujaruelo.

Dentro de dias teremos aqui a segunda parte desta épica viagem :-)

Se for caso disso, vão passando por cá.

ZM

7 comments:

PMBC 7/10/2007 10:31 da tarde  

Interessantíssimo. Parabéns! Aguardo próximos passeios.

Rosario,  7/11/2007 5:43 da manhã  

Aqui fico à espera da segunda parte da viagem !
A primeira agradou-me muito, tive a impressão de estar com voçês !
Bisous !

inês 7/11/2007 9:54 da manhã  

fantástico!

não sei como aqui apareci, mas vou voltar!!!

CAP CRÉUS 7/11/2007 10:14 da manhã  

Parabéns pelas fotos e pela Pireneada!
Cá voltarei para ler tudo como deve ser!

Nana 7/11/2007 8:50 da tarde  

Ora ai é que eu reconheço o meu mano, nessas aventuras !!!
Quem sobe assim aos picos não se deve atrapalhar quando está em casa com 2 criancinhas adoráveis !!!
Beijocas ! E cá fico à espera da "suite des aventures" !!!

Mariana,  7/11/2007 10:50 da tarde  

que maluquice!!!mas deve ser espectacular...que inveja!!!!!!!!!

Pratas 7/12/2007 11:47 da tarde  

Grandiosa viagem com excelentes fotos a terminar num belo post

Enviar um comentário

Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

  © Blogger template Simple n' Sweet by Ourblogtemplates.com 2009

Back to TOP