Mostrar mensagens com a etiqueta filosofia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta filosofia. Mostrar todas as mensagens

Diário da Quarentena - Dia 18

>> domingo, março 29, 2020

Um dos temas que me tem ocupado o pensamento nestes dias é a forma como as pessoas interpretam o caos em que vivemos e os anseios que têm face ao que possa resultar de bom e de mau de toda esta crise. Há muito quem deseje a total ruína de tudo o que nos trouxe aqui, acreditando que das cinzas sairá algo francamente melhor e mais "ordenado". Pessoalmente, quero crer que daqui a uns meses (talvez demasiados meses) voltaremos a viver de uma forma próxima da que vivíamos antes, mas agora com uma outra capacidade de olhar para as zonas de sombra dos sistemas em que operamos, para fazermos uma transição serena, sólida e sustentável.

Várias pessoas que conheço partilharam este artigo de Charles Eisenstein, onde se levantam questões pertinentes sobre de que forma desejamos viver no futuro em termos de medidas de segurança e desinfecção, e até que ponto o afastamento das pessoas compensa o preço a pagar em vítimas desta ou de outras pandemias.

Nele se diz, a páginas tantas:
"We stop, hardly able to believe that now it is happening, hardly able to believe, after years of confinement to the road of our predecessors, that now we finally have a choice."
Incomoda-me que pareça haver tanta gente que anseia pelo colapso para finalmente ter uma escolha. Nós tivemos sempre uma escolha. Não precisamos que caia o sistema em vigor para inventarmos uma coisa melhor, podemos sempre, pelo contrário, inventar coisas que tornem obsoleto o sistema em vigor, substituindo-o por ridículo e não por supressão.
Julgo que terá sido o Jordan Hall que disse que está na altura de entregarmos as chaves disto tudo a uma geração mais nova, para que o conservadorismo dê lugar à creatividade, para que comecem a criar-se estruturas sociais que possam garantir-nos continuidade (coisa que manifestamente as actuais não garantem). Esta é uma estupenda altura para se juntarem os que irão forçosamente ter que tomar as rédeas do poder nos próximos anos e comecem a emergir soluções fora da caixa e modelos de vida que invertam o curso de "desenvolvimento" que percorremos desde a Segunda Grande Guerra até aqui. Não é preciso começar das cinzas. Não é necessário o colapso do que existe hoje. Bastará substituir e melhorar ou, como diria o Ken Wilber, transcend and include.
Além disso, quem nos garante que o que for iniciado do zero, na hipótese do total colapso, será melhor do que o que tínhamos antes? As pessoas, nos momentos de alteração radical das condições de vida, e particularmente em períodos de medo, tendem a regredir no seu desenvolvimento pessoal, em lugar de progredirem. Tendem a voltar a lugares que consideram seguros. Não me parece que daí resulte nada de interessante se o que queremos co-criar for construído a partir de cinzas e de caos.

Gostei da ideia: "I have my opinions, but if there is one thing I have learned through the course of this emergency is that I don’t really know what is happening. I don’t see how anyone can, amidst the seething farrago of news, fake news, rumors, suppressed information, conspiracy theories, propaganda, and politicized narratives that fill the Internet. I wish a lot more people would embrace not knowing. I say that both to those who embrace the dominant narrative, as well as to those who hew to dissenting ones. What information might we be blocking out, in order to maintain the integrity of our viewpoints? Let’s be humble in our beliefs: it is a matter of life and death.". Era bom que todos tivéssemos essa percepção. Ninguém sabe exactamente o que se está a passar. Era bom que cada um procurasse informação credível, construísse a sua história, mas não encharcássemos o espaço colectivo de premonições, ameaças e segredos de polichinelo.

Comecei por pegar neste artigo por não me rever no início, mas com a leitura até ao fim acabo por encontrar sentido em muitos dos pontos apresentados.
'“How do we protect those susceptible to Covid?” invites us into “How do we care for vulnerable people in general?”'
Vale a pena ler até ao final.



Hoje tivemos que ir às compras a um supermercado. Com 6 pessoas em casa, dois gatos e uma cadela, não temos outro remédio senão ir às compras de vez em quando. Vamos conseguindo suprir muitas das necessidades nas mercearias da aldeia, mas pelo menos uma vez na semana vamos a um supermercado. Hoje não havia filas para entrar, o que é positivo e surpreendente, mas não nos deixam entrar aos dois ao mesmo tempo. Um casal apresenta-se na porta do Lidl para fazer compras, mas apenas um é autorizado a entrar. Que diferença faria se entrássemos os dois e fossemos considerados dois clientes em vez de um? Sobretudo numa altura em que não havia filas para entrar. A forma como se exagera nas regras e se impõe a toda gente comportamentos arbitrários que não parecem ter qualquer efeito no risco que corremos incomoda-me.
Da próxima vez teremos que fazer de conta que não nos conhecemos, para podermos entrar ambos à vez, e depois fazemos as compras juntos como gostamos. Se ninguém deve separar o que Deus uniu (ou o Conservador, ou o destino ou a fortuna), não será o raio de um vírus que nos há-de afastar.



Para ilustrar os dias da quarentena, como tenho feito diariamente, aqui ficam duas fotos tomadas cá em casa há pouco.



Read more...

Diário da Quarentena - Dia 14

>> quarta-feira, março 25, 2020


Matias, brincando com o Infinito.

Tenho lido vários posts e comentários nas redes sociais que condenam a prática da corrida neste período de quarentena obrigatória. Deixo aqui algumas notas e reflexões sobre o tema:

1 - Eu corro quase diariamente há mais de 15 anos. É um hábito que entrou devagarinho, como todos os hábitos – os bons e os maus – e se instalou de uma forma que acredito que seja difícil de compreender para algumas pessoas. Se me disserem num dia que só tenho tempo ou para correr ou para almoçar, eu escolho correr. Não digo que escolhesse sempre correr em lugar de comer, mas sou bem capaz de saltar uma refeição se for essa a única forma de ir correr nesse dia. O que quero dizer é que, por estranho que possa parecer a quem não corre, a corrida é-me quase vital. Correr está numa camada da minha pirâmide de Maslow logo acima de comer e respirar, e seguramente abaixo da ligação ao wifi.
Mas não são só os não corredores que criticam esse “luxo”, também me tenho sentido criticado por quem corre, por quem sabe bem o que significa correr para quem está “viciado”, e para isso eu tenho uma outra explicação (mais adiante).
No caso de quem não corre, é fácil perceber que considerem desadequado correr o mais remoto risco (arriscando igualmente o contágio de outrem), por um hábito que consideram uma futilidade. A única coisa que lhes posso dizer é que correr diariamente, para mim, é mesmo importante. Se não fosse, não sairia de casa para o fazer numa altura destas, até porque não me custa assim tanto estar em casa.

2 – Moro numa aldeia da zona rural de Sintra. Consigo sair de casa, enfiar-me na Serra, correr durante 50 minutos ou uma hora e não me cruzar com mais de 10 pessoas no total, nunca a menos de 3 metros de distância (aliás, por estes dias, nota-se bem o esforço que as pessoas fazem por se afastarem quando se cruzam nos caminhos). Francamente, a probabilidade de me contaminar ou contaminar outrem com o raio do bicho nesta minha actividade é absolutamente residual.

3 – Têm-me dito que uma das razões para não ir correr é a possibilidade de ter um acidente e precisar de assistência médica, comprometendo a disponibilidade desse recurso actualmente escasso para quem mais precisa dele. Sou sensível a esse argumento, mas uma vez mais recorro à probabilidade de tal acontecer: corro há mais de 15 anos, maioritariamente em trilhos, faço inúmeras provas por ano, e nunca tive mais do que uns riscos nos cromados, não me parece que deva privar-me desta necessidade por esse motivo, sinceramente.

4 – Também percebo que, para quem não tem o privilégio de poder correr em lugares onde NUNCA há ninguém (não estão vazios por as outras pessoas estarem de quarentena), é um bocado irritante saber que há quem ande a correr alegremente. Essas pessoas devem lembrar-se que há inúmeras outras vantagens que têm por morar em zonas urbanas que eu não tenho por morar no campo. São escolhas.

5 – Finalmente, a reflexão que mais me interessa, e que talvez justifique porque é que mesmo quem gosta de correr preferia ver-me em casa fechado.
Foi publicado há dias o testemunho de um famoso corredor Espanhol que diz que, apesar de poder correr sem se cruzar com ninguém, não o faz para dar o exemplo e por respeito para com os mais velhos e para com o pessoal da linha da frente (a quem aproveito para tirar aqui o meu chapéu). A mim parece-me absurdo que uma pessoa se sacrifique por respeito seja ao que for, se isso não contribuir de facto em nada para solucionar o problema. É como as velhas que vão sofrer de joelhos para Fátima, é inútil, só serve para si próprias.
Isto remete para uma ideia mais vasta que tenho sentido que está por trás de muitos posts das redes sociais destes dias, embora de forma totalmente inconsciente, que é a velha noção Judaico-Cristã de que para merecermos de novo o que tínhamos antes teremos que sofrer, teremos que aceitar o castigo.

O Deepak Chopra fala muito desse conceito que temos gravado no nosso subconsciente colectivo: a ideia de que se não sofrermos não merecemos nada de bom. A isso podemos juntar a ideia que também me parece estar muito presente nalgumas intervenções de que a COVID-19 é um castigo divino ou do Universo ou da Terra ou lá de quem seja e que, a menos que aceitemos ficar ali no canto com orelhas de burro, jamais o mundo será abençoado com o fim desta praga. Julgo que muitas das pessoas que criticam fortemente quem não se auto-castiga estão incomodadas com essa possibilidade. Precisam de um cordeiro de Deus que tire o pecado do mundo e a minha corrida fá-los temer que os Deuses não estejam contentes.
A este propósito, recomendo o texto recente do Rui Zink aqui.

6 – Claro que as saídas de cada pessoa de casa têm que ser feitas com bom-senso. O texto que anda por aí a circular sobre um tal Aníbal (curioso nome) que passa todo o dia na rua com o pretexto de que está sempre a fazer coisas que são autorizadas na lei é totalmente absurdo e uma forma infantil de pretender culpar os outros. Embora nos últimos 14 dias só tenhamos utilizado o carro para ir ao supermercado, houve uma ocasião em que fomos com os miúdos a um lugar da Serra onde íamos com alguma frequência, para os deixar caminhar um pouco no meio do bosque. Quando chegámos, verificámos que havia lá mais gente. Nem estacionámos, demos meia-volta ao carro e voltámos para trás. Uma ou duas pessoas a correrem na marginal de Espinho é seguro, 30 já não é. Não tenho nenhuma sugestão para regular isto além do simples e natural bom-senso.
Tenciono manter-me a correr até que haja alguma proibição em contrário (espero que não haja), mas isso não quer dizer que não respeite o imenso sacrifício que muita gente está a fazer no momento em que corro. Como já disse, tiro o meu chapéu a todos os que na linha da frente estão cara a cara com o malvado do bicho, mas, sejamos honestos, a minha corrida, por muito prazer que me dê, não complica em nada o vosso trabalho.
Já agora, eu estou no grupo dos mais ansiosos para que tudo isto passe, já que com uma pontaria certeira me despedi do emprego anterior no final de Fevereiro, estando neste momento em casa com 4 filhos e a mulher e sem ordenado, a subsistir de umas poupanças não renováveis até que possa começar o novo projecto profissional que ficou congelado até nova ordem. Nem tudo na vida de quem corre pelo mato são flores.

Read more...

Third Stage calling

>> quarta-feira, novembro 29, 2017


sosna sarna from jucho on Vimeo.


Há algum tempo que aqui não vinha.
Este é um vídeo relativamente enigmático, que deixo apenas como pista.
Chamei ao post Third Stage Calling.
Faz-me sentido. Faz-me muito sentido.

Read more...

Fotografia, espaço e tempo e outros assuntos interessantes.

>> segunda-feira, junho 06, 2016



Esta apresentação começou por me chamar a atenção por causa da ideia de apresentar mais do que um instante temporal numa única imagem. Mas vai muito para além disso. Aborda o tema da forma como hoje as pessoas (não) olham para os monumentos (apenas os vêem no ecrã do telemóvel enquanto se fotografam a si próprias para partilharem o momento nas redes sociais), aborda a forma como exploramos os recursos naturais e como os animais conseguem ter uma abordagem diferente.
É francamente interessante. Recomendo vivamente.

Read more...

Flores na casa de banho

>> sábado, janeiro 02, 2016

Segundo dia do ano.
O Simão pediu para ir fazer cocó, desculpem começar assim, mas ele nunca vai à casa de banho sozinho e a história decorre daí. Entretanto, sentado na borda da banheira, eu lia o Afonso Cruz.

“...queremos o conforto da banalidade, daquilo que conhecemos, sentarmo-nos num restaurante e pedir sempre o mesmo bitoque, olhar para a corrupção quotidiana como quem olha uma montra de pronto-a-vestir, fazer sempre as mesmas maldades, dobrar as camisolas da mesma maneira, votar nos mesmos criminosos, saber que as meias estão na gaveta certa, ignorar a miséria e ter a certeza absoluta de que os chapéus não serão jamais pousados em cima da cama.”

“...viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, aquilo que não fazemos todos os dias.”

Entretanto, o Simão acabou a sua função metabólica. Fui-lhe lavando o traseiro enquanto comentava que também gostaria de evacuar assim: sentava-me na retrete e o resto alguém faria por mim, acabando sempre com a peidola lavadinha.
O Simão disse: “Não, porque tu és pai”, e eu: “Sou pai, mas também sou filho”. Pausa breve. “És filho, mas é de um pai que é avô, tu já sabes”.
É assim a ordem das coisas, se somos filhos de um pai que já é avô, já sabemos o que temos que saber, já ninguém cuida de nós.
Adoro a filosofia dos putos, mesmo na casa de banho.
Sobretudo com as palavras do “Flores” a ecoarem-me nas ideias, talvez perfumando aquele lugar àquela hora da manhã.

Read more...

A emergência criativa

>> sexta-feira, outubro 30, 2015



Há 20 anos atrás (mais coisa, menos coisa) li um romance de que gostei muito: "O Inverno em Lisboa" de Antonio Muñoz Molina. Há pouco tempo tropecei num outro romance do mesmo autor - "Como la Sombra que se va" - na língua original, e comprei-o para o ler. Este último fala do percurso que o assassino de Martin Luther King terá feito em Lisboa, em 1968, quando andava fugido. E também fala do autor de um romance chamado "O Inverno em Lisboa", que terá vindo a Lisboa em meados dos anos 80 para se documentar para a escrita desse livro.
Por essa razão, acabei por interromper a leitura do novo livro e mergulhei de novo no outro.
Está a ser uma experiência narrativa absolutamente apaixonante. A pessoa que eu sou hoje ao ler o livro que li há quase duas décadas não é a mesma. Delicio-me a cada página com as diferentes leituras que faço, demonstração evidente de como a mundividência nos vai transformando. Visito partes de mim que sei que não procuro visitar, que estão na sombra, limpo-lhes o pó. Tem sido um exercício agitado de análises e balanços.
A dois dias de virar meio século, começo finalmente a perder cautelas e a revelar-me mais completo. Como diria a minha avó: "já não perco casamento".
Trago-vos hoje este pedaço d'O Inverno em Lisboa:

Olhando para o quadro que ilustra esta conversa toda, diz o autor:
"Biralbo disse-me que olhar para aquele quadro era como ouvir uma música muito próxima do silêncio, como ser possuído lentamente pela melancolia da felicidade. Compreendeu de repente que era assim que ele devia tocar piano, como aquele homem tinha pintado: com gratidão e pudor, com sabedoria e inocência, como se soubesse tudo e tudo ignorasse, com a delicadeza e o medo que temos quando nos atrevemos pela primeira vez a uma carícia, uma palavra necessária. As cores, diluídas na água ou na distância, desenhavam no espaço branco uma montanha violeta, um campo de leves manchas verdes que pareciam árvores ou sombras de árvores, na penumbra de uma tarde de Verão, um caminho perdendo-se até às colinas, uma casa baixa e sozinha com uma janela esboçada, uma avenida com árvores que quase a ocultavam, como se alguém tivesse escolhido viver ali para se esconder, para olhar sozinho o cimo da montanha violeta."

No capítulo seguinte remata:
"Como algumas vezes o amor e quase sempre a música, aquela pintura fazia compreender a possibilidade moral de uma estranha e inflexível justiça, de uma ordem quase sempre secreta que modulava o acaso e tornava habitável o mundo e não era deste mundo. Algo sagrado e hermético e ao mesmo tempo quotidiano e diluído no ar, como a música de Billy Swann quando tocava o seu trompete num tom tão baixo que o seu som se perdia no silêncio, como a luz ocre, rosada e cinzenta dos fins de tarde em Lisboa: a sensação não de decifrar o sentido da música ou as manchas de cor ou o mistério imóvel da luz, mas de ser entendido e aceite por eles."

É uma das mais belas descrições que tenho lido da emergência criativa, daquilo que nos faz divinos, da paixão com que podemos olhar para o mundo.

Bateu.


Read more...

Estaremos à beira de um salto qualitativo nas organizações?

>> quinta-feira, janeiro 08, 2015

Esta apresentação é fabulosa. Vale a pena o investimento de tempo.

Read more...

Cinemas e bichos

>> terça-feira, dezembro 30, 2014

Umas curtas férias de fim-de-ano, permitiram-nos entregar as crianças (todas!) aos avós, dando-nos uns preciosos dias a dois, que é coisa que nos sabe a mel (literalmente) nas raríssimas ocasiões em que acontece.
Tentamos sempre aproveitar para fazer os nossos jantares românticos e para umas incursões (anuais) ao cinema.
Ontem foi um desses dias: comprámos os bilhetes para o Interstellar (que filme fabuloso, o melhor do ano, a dois dias deste terminar) e fomos depois ao nosso culto de Cascais - o Manolo dos frangos, onde já vamos desde namorados, há quase 2 décadas -, meio frango para cada um, empurrado por uma imperial, uma salada mista à la Manolo, eis um pequeno e ainda acessível prazer que qualquer um pode gozar.
Regressados ao ambiente plástico dos cinemas Nos do Cascais Shopping, entregámos os bilhetes e disseram-nos que teríamos que aguardar porque estavam a efectuar a limpeza da sala. A primeira ideia que surge é a de que alguém se sentiu mal no cinema e vomitou a cadeira ou teve um ataque agudo de caspa grossa, obrigando à intervenção da brigada do aspirador. Faltavam ainda umas horas para que percebêssemos a necessidade da tal limpeza...
Enquanto esperávamos, e depois de termos pago com alguma resistência os 13€ que custam as duas entradas no cinema actualmente, reparámos que para a generalidade das pessoas esse custo não será muito elevado, pois que o majoram com o custo dos "pacotes" de pipocas e Pepsi que TODOS adquirem, como se não fosse possível ver um filme sem tal acessório.
Já na sala, comentávamos impressionados (coisas de quem, com 3 filhos pequenos, raramente vai ao cinema propriamente dito) a quantidade de gente (a quase totalidade) que entrava com baldes de 3L de pipocas e dois gigantescos copos (baldes) de Pepsi. Pergunto-me se em casa farão a mesma coisa e deixo de me espantar com a publicidade à Nutribalance.
Entretanto, chega a hora do início do filme e, para nossa surpresa, começa um festival de publicidade que levaria quase meia-hora a terminar. Ir ao cinema nos dias que correm é um exercício de paciência.
Finalmente, bastante tempo depois da hora marcada, começa um dos melhores filmes que vi na vida e seguramente o melhor do ano: Interstelar. É um filme com muitas leituras, mas que me tocou em diversos pontos particularmente sensíveis: desde a questão do que estamos a fazer ao planeta e a previsão de como acabaremos todos inevitavelmente por deixar de ter com que nos alimentar, até à questão do amor como força única que atravessa qualquer dimensão, incluíndo o tempo e o espaço, passando pela ideia de que nós podemos, afinal, ser mesmo aqueles de quem temos estado à espera, considerando que podemos estar a tentar consertar coisas a partir de um futuro onde poderemos já estar simultaneamente. É um filme que vale a pena ver com muita atenção e que, para variar, me emocionou a um ponto que me deixou embaraçado quando subitamente se acenderam as luzes para um intervalo que me pareceu desajustado e fora do tempo. Mas ainda não acabaram com isso?
Não, não acabaram, principalmente porque a horda de animais que ocupava a restante plateia saltou como se tivessem carregado no "Eject" para irem adquirir mais pipocas e mais Pepsi. Eu comentei com a Raquel que deviam ir buscar sacos de enjoo, porque despachar um balde de 3L de pipocas em meio filme não pode ter outro resultado.
Afinal, quando a segunda parte começou, eles regressaram apenas com mais pipocas, como se tivessem estômagos tão vorazes como o buraco negro que aparece em destaque no filme.
Entretanto, ainda no início do filme, mas quando já tudo estava a rolar em velocidade de cruzeiro, tinha-nos aparecido uma família de brasileiros perguntando qual era a nossa fila e quais os nossos lugares, para concluírem que a sua fila (vinham atrasadíssimos) era a mesma, mas na ponta oposta. Felizmente optaram por ir dar a volta, chateando outros espectadores.
Resta-me dizer que, assim que o filme termina, ainda antes mesmo de surgirem as primeiras letras da ficha técnica, acendem-se as luzes e, mais uma vez, parece que alguém disparou alfinetes nos traseiros da generalidade da plateia: toda a gente se levanta de um salto e começam a despejar a sala, dando a entender que o que acabaram de presenciar não lhes disse mais do que qualquer episódio da Casa dos Segredos. Eu fiquei a questionar-me sobre o que os faz irem ao cinema.
Ficámos na sala até entrar de novo a brigada da limpeza e só nessa altura demos verdadeiramente conta da necessidade de tal equipa. Havia pipocas por todo o lado, cobrindo o chão e as cadeiras e havia também alguns copos de Pepsi derramados na alcatifa.
Saímos relativamente envergonhados, desejando uma boa noite aos pobres funcionários que teriam que repor a sala como estava antes.
Acho que percebi que, afinal, as pipocas e a Pepsi têm uma função social importante: manter pelo menos 4 postos de trabalho, a pessoa que as vende ao balcão e as 3 pessoas que têm que limpar a javardice que delas resulta.
Desculpem-me este longo desabafo, mas foi uma experiência que me tocou intensamente. Não me agrada a sensação de presunção que daí de corre, mas senti-me verdadeiramente a partilhar o cinema com uma vara de porcos. Uma vara de porcos que, além do mais, não me pareceu perceber metade (um décimo?) do que passou pelo ecrã.
Foi estranho...

Read more...

A nova era (e a consequente ameaça ao estado)

>> terça-feira, junho 24, 2014

Há dias discutimos cá em casa a notícia sobre a resistência que os taxistas estão a levantar à aplicação Uber. Para quem não saiba do que se trata, podem ler uma boa descrição aqui.
Este é apenas mais um episódio numa lógica que tem vindo a crescer e que é a de os cidadãos se organizarem e partilharem serviços que anteriormente apenas eram disponibilizados por profissionais. Isso acontece em inúmeras áreas, como as boleias partilhadas, o arrendamento de casas para férias, os passeios turísticos guiados, etc.
Andemos um pouco para trás. Antes do nosso actual funcionamento ligados em nuvem todos nós já tínhamos beneficiado de uma casa de férias de alguém amigo, a quem pagámos essencialmente as despesas, ou de uma boleia organizada, normalmente com amigos ou conhecidos que se dirigiam ao mesmo local ou evento do que nós, na qual também partilhávamos despesas de deslocação. Os taxistas nunca se manifestaram contra isso. O "problema" é que agora passámos a fazê-lo com desconhecidos, entrando na esfera de concorrência do serviço profissional por eles prestado.
Pergunto-me em primeiro lugar se haverá forma legal de impedir que cidadãos anónimos se organizem, através de redes sociais ou sites dedicados, para partilharem despesas, porque é disso que se trata. Por exemplo, no site Bla Bla Car (no qual eu próprio estou já registado), o preço de uma viagem de Lisboa para o Porto de automóvel, pela autoestrada, é de 15 a 20€ por pessoa. Se fizermos as contas, um carro que leve 3 passageiros (além do condutor e proprietário do carro), não dá lucro a quem fornece o serviço, por isso isto não é propriamente um negócio, é de facto um sistema organizado de partilha de despesas. Suponho que não seja possível o estado meter aqui prego nem estopa.
No caso do Uber, estaremos mais próximo de uma concorrência real ao serviço de taxis, mas ainda assim ninguém ficará rico a disponibilizar boleias dentro das cidades através desta aplicação. O reverso da medalha é que, de facto, o estado poderá vir a perder receita fiscal caso o mercado dos táxis venha a encolher como consequência do aparecimento deste serviço online. E eu acredito que vem por aí muito mais do que o Uber, o Bla Bla Car, os inúmeros sites de arrendamento de casa, e por aí fora.
Nem de propósito, tropecei hoje nesta apresentação de Clay Shirky, que nos fala de como as comunidades cooperativas estão a ganhar força e eficácia, podendo vir a influenciar até a forma como fazemos leis e governamos um país.



Dir-se-ia que os cidadãos se estão a organizar, substituindo funções que estavam anteriormente atribuídas a grupos profissionais ou a departamentos do estado de uma forma menos centrada no lucro ou mais democrática. Isto faz emergir problemas que são novos e que ameaçam de alguma forma a sustentabilidade do próprio estado. Suponho que, pelo menos num curto prazo, ninguém esteja à espera que as grandes infraestruturas estatais possam ser substituídas por cidadãos organizados sobre plataformas de comunicação electrónica. No entanto, a tendência parece ser a de o estado perder realmente receita por via dessa organização informal, embora também possa vir a perder despesa se de facto houver funções hoje estatais que passem a ser disponibilizadas por cidadãos. Acredito que a balança se equilibrará naturalmente, mas temos pela frente um período de ameaça ao status quo.
O que é que eu faria se fosse taxista? Se calhar começava já por aderir ao Uber. Mas reconheço-lhes o direito a recearem o futuro do seu negócio.

Eu acho, sinceramente, que o futuro vai ser francamente divertido.

Read more...

De novo as praxes

>> segunda-feira, janeiro 27, 2014



Eu gostava que os Henriques Monteiros dessa vida me dissessem onde é que estão a diversão e o carnaval nas cenas que se mostram neste documentário. Como é possível que alguém defenda a continuidade desta barbaridade? Conseguem ver, como eu vejo, alunos adultos a chorar por efeito dos maus tratos e do autoritarismo gratuito? Isso não vos incomoda?

Read more...

O exemplo do Eusébio

>> segunda-feira, janeiro 06, 2014

Nunca liguei ao futebol. É um desporto que nunca me disse absolutamente nada. Quando, em miúdo, os meus amigos queriam jogar à bola (felizmente, poucas vezes) a única escapatória que tinha era ir para a baliza, tarefa que desempenhava com pouco mérito e muito sacrifício.
Foram precisas várias décadas da minha vida para conseguir ver um jogo de futebol do princípio ao fim e isso só aconteceu em jogos da selecção nacional, nunca num jogo entre equipas nacionais ou estrangeiras. Em contrapartida, quando via a Vanessa Fernandes a caminho da meta, emocionava-me até às lágrimas, mas isso são outros quinhentos e só os refiro para que não digam que sou insensível às glórias do desporto nacional.

Posto isto, passo ao tema que me trouxe aqui hoje: fiquei surpreendido com a reacção colectiva à morte do Eusébio. Não estou (ainda) a fazer qualquer juízo de valor, apenas digo que me surpreendeu.
E surpreendeu-me em primeiro lugar porque ignorava muito do que vou agora percebendo que foi a vida e o carácter do Eusébio. Ora, essa ignorância deve-se por um lado ao meu desinteresse pelo desporto que o tornou famoso, mas também (apetecia-me dizer sobretudo) ao pouco que se falava dele, pelo menos nos órgãos de comunicação mais generalistas, os tais que passaram os últimos dias a não falar de outra coisa. Esta histeria de agora, quando comparada com o silêncio de outrora, surpreende-me e de alguma forma choca-me. Terei andado distraído? Se assim foi, que me desculpem.

Em segundo lugar, o que é deveras surpreendente, e neste caso já não poderá ser fruto de distracção ou falta de paixão futebolística, é ouvir discursos como o do Pinto da Costa, em que ele diz que o Eusébio era um grande homem, um grande exemplo, porque (cito) “não tinha inimigos e não era inimigo de ninguém”. Mas como raio se pode achar que um grande homem, um homem exemplar, faz o oposto daquilo que fazemos e cultivamos? Como é que, no contexto do futebol Português, se pode achar exemplar um homem que aparentemente era humilde e verdadeiramente amigo de todos? Como se pode achar exemplar um homem que pedia desculpa aos guarda-redes por lhes meter golos ou lhes esmagar as luvas com um remate mais violento? Onde é que alguma centelha desse espírito nobre do verdadeiro desporto ainda está presente no panorama do futebol Luso? Será que, no seu tempo, este tal Eusébio que levantou agora multidões, atribuía permanentemente as culpas dos seus fracassos aos árbitros. Aprovaria ele aquele grupo tenebroso de gente que dá pelo nome de “No Name” e os seus cânticos?


Vi no noticiário como esse tal grupo quis ir também, em conjunto, prestar uma homenagem ao Eusébio, como se realmente o admirassem ou sequer falassem a mesma linguagem. Fiquei a pensar que, das duas uma, ou me andam a enganar com este mito do Eusébio morto ou, se ele era realmente aquilo que agora se relata, não vejo como poderia ele aprovar que uma claque usasse um símbolo cujas fontes são totalmente evidentes e cantassem coisas como esta que retirei deste link:

Foder Lagartos
Comer Dragões
Este é o lema dos campeões
Força Benfica
Vamos vencer
Somos NN até morrer

Em cada Tripeiro há um paneleiro
Em cada Lagartão há um cabrão
E força Benfica
E força Benfica
Olé Olé

Se este Eusébio que me vendem, agora que já não está entre nós, era realmente como o descrevem, duvido que vibrasse com cânticos deste gabarito, assim como duvido que se revisse na simbologia que utilizam.
Tomara que essa chama, que parece ter comovido tanta gente, ilumine o futebol em Portugal e o torne um verdadeiro Desporto. Olé.

Read more...

A cabeça...

>> quinta-feira, dezembro 26, 2013

"A cabeça (...) é muito frágil e, embora não dê para abrir e ver, ela tem coisas dentro, que são coisas que se dizem ou que se vêem, e nós devemos ter cuidado com o que nunca mais possamos tirar de lá."
valter hugo mãe
in "o nosso reino"

Um livro impressionante.

Read more...

Love is the Mindbomb



Parece um discurso simples, mas tem lá dentro quase tudo o que é preciso para seguir em frente.
Há claramente uma urgência.
Love is the Mindbomb.
Oiçam com atenção.
Que belo discurso!

Read more...

Cinco questões que nos devíamos colocar pelo menos uma vez na vida.

>> quarta-feira, outubro 02, 2013


Directamente por recomendação do Despertutor.
Obrigado.

Read more...

Convenções e tolerância

>> quinta-feira, setembro 12, 2013

Um dia destes passei de carro em frente à casa do famoso Castelo Branco. Reparei numa figura, debruçada no interior do seu Jaguar, estacionado à porta, estando apenas visível um longo par de pernas que terminavam num elegante par de sapatos de salto alto, daqueles de agulha, bem altos. Pareceu-me, contudo, que alguma coisa ali não batia certo e quando passei junto da figura, reparei que se tratava exactamente do próprio Castelo Branco.
Fiquei a pensar na forma corajosa como esta personagem faz o que lhe dá na gana, independentemente das convenções e do que os outros digam ou pensem. Afinal, por que raio de carga de água não há-de um homem usar saltos altos se se sentir bem com isso?
Do que tenho conhecido da personalidade e da forma de estar na vida deste Castelo Branco, diria que não é pessoa com quem desejasse conviver regularmente, mas saúdo a forma como desfaz as convenções no que diz respeito a roupas e adereços de moda.
Sou cada vez mais tolerante com este tipo de diferença. Quem sou eu para julgar a apresentação ou a forma de vestir de quem quer que seja?

Read more...

A morte pacificada.

>> domingo, setembro 01, 2013

Henrique Monteiro, cujo pensamento está em geral nos antípodas do meu, escreve esta semana no Expresso uma nota que merece ser divulgada:

"Houve tempos em que a morte de um homem, por mais controversas que fossem as suas ideias, servia para aplacar ódios pessoais e políticos, pelo menos na esfera pública. Hoje, já nem se concede essa benesse a quem parte. António Borges pensava de forma diferente e já em vida pagou cara essa ousadia. A intolerância, mesmo perante a morte, dos que se tomam por donos da verdade, é um sinal perturbador, especialmente numa sociedade em crise de valores. Nele está a génese de todos os totalitarismos."

Leio comentários e opiniões relativas à pessoa que parte e penso sempre que não gostaria de estar na pele da sua família que, além do desgosto de perder alguém que estima, tem ainda que se proteger da verve mal educada de tanta gente sem a mínima sensibilidade.

E confesso que uma das coisas que mais me assustam e me entristecem é perceber que continua a haver tanta gente incapaz de controlar o seu ódio, tantas vezes sem razão real, apenas pelo que ouve dizer ou lê nas notícias. Essa energia negativa à solta não ajuda nada o Cosmos a endireitar-se.

Read more...

Education again and again. Ken Robinson, obviously.

>> sexta-feira, julho 26, 2013


Mais um fabuloso discurso de Ken Robinson sobre a educação e sobre a forma como ela (ou a falta dela) afecta as nossas sociedades contemporâneas. A ouvir em repeat.
PS: alguém pode, por favor, falar deste discurso ao ministro Crato? Obrigado.

Read more...

Earth is Home

>> quarta-feira, março 27, 2013


Oiçam este texto até ao fim. Oiçam-no com o coração.
Este é também o meu sonho.
Chamem-me piegas se quiserem.
Este é o meu sonho.

Read more...

World 2.0

>> quarta-feira, março 20, 2013

É a isto que me refiro quando digo que a solução para os problemas do mundo não passará pelos partidos políticos.
A economia dos cidadãos está finalmente a surgir, apoiada em ferramentas de colaboração e redes sociais.
Eu quero acreditar que este poder do colectivo será o driver mais importante da próxima transição.
Queres fazer parte?



Via Despertutor. (Obrigado).

Read more...

Os autocarros de Helsínquia

>> quarta-feira, março 13, 2013

Eis como um texto sobre a fotografia pode revelar-se uma excelente lição para a vida.
Vamos por partes.

Encontro entre estas duas imagens uma semelhança que me agrada e que suspeito que possa não ser fruto do acaso:





A primeira é uma das imagens que ilustram este artigo de Arno Rafael Minkkinen, a segunda é de uma fotógrafa de que já aqui falei inúmeras vezes e que é provavelmente a fotógrafa em cujo autocarro mais me apetece seguir, aproveitando a metáfora de Minkkinen. Curiosamente, a de Minkkinen foi feita em Rhode Island. Isto anda tudo ligado.

Agora, alguns destaques desse fantástico artigo:

"What to do? It’s simple: Stay on the bus. Stay on the f**king bus.

Why? Because if you do, in time you will begin to see a difference. The buses that move out of Helsinki stay on the same line but only for a while, maybe a kilometer or two. Then they begin to separate, each number heading off to its own unique destination. Bus 33 suddenly goes north, bus 19 southwest. For a time maybe 21 and 71 dovetail each other for a spell, but soon they split off as well. Irving Penn is headed elsewhere.

It’s the separation that makes all the difference, and once you start to see that difference in your work from the work you so admire (that’s why you chose that platform after all), it’s time to look for your breakthrough."

"We do not have to be number one in this world. We only have to be number one to ourselves. There is a special peace that comes with such humility. When you reach this peak in life, you’ve reached the highest mountain peak of them all."

"It’s a lesson we are learning back in the classrooms of America I think. I hope. When I see bumper stickers that read: “My child is on the honor roll,” I see all the sons and daughters that didn’t make the list. Tracey Moffatt has a poignant series of works dedicated to athletes who’ve come in fourth place: no gold, no silver, not even bronze. Being numero uno? Stardom is no dream to chase. We just need to be good. And make good work."

Read more...

  © Blogger template Simple n' Sweet by Ourblogtemplates.com 2009

Back to TOP