Economia paralela

>> sábado, outubro 16, 2010

A propósito deste post, no "Seis Oito", lembrei-me de uma outra coisa que vi na ilha de Samso, na Dinamarca, e que também é economia paralela, embora não seja fuga aos impostos.
Os pequenos agricultores da ilha de Samso vendem os seus produtos na estrada, junto à entrada das quintas, expondo-os em caixas ou simplesmente no chão e recebendo o pagamento pelas hortaliças nuns simples mealheiros que se encontram dentro de uns casinhotos. Quem quer hortaliça para a sopa, chega lá, escolhe o que pretende, vê na tabela quanto custa cada coisa, faz as contas e coloca o respectivo pagamento dentro da caixinha. Não há facturas, nem balanças certificadas, nem IVA, nem complicação. O estado cobra uma espécie de licença a cada vendedor, onde se assume um determinado nível de proveitos, que toda a gente diz que é um décimo do real.
É uma actividade regulada, simples e que funciona bem para toda a gente.
Tentei imaginar este modelo no nosso Portugal e fiquei-me a rir para dentro.
O primeiro infeliz que se lembrasse de vender assim os seus legumes acordava na manhã seguinte e além de não ter lá os legumes nem a caixinha do dinheiro, tinha o fiscal do fisco a cobrar o pagamento especial por conta, o outro PEC que tanta mossa faz aos pequenos comerciantes.
Temos muito para andar até conseguirmos chegar à verdadeira democracia.
ZM

12 comments:

Daniel (montanhacima),  10/16/2010 1:29 da tarde  

Na alemanha há muitos anos que é possível ir apanhar flores ou mesmo fruta ao campo e deixar uma quantia simbólica numa caixinha que lá existe para o efeito.

O dono nem está por perto e a coisa funciona.

Em 2004 estivemos em wiesbaden em casa de uns amigos e a casa estava cheia de girassóis comprados deste modo.

Helena Araújo 10/16/2010 2:19 da tarde  

E nas imediações de Berlim os lavradores fazem o mesmo com os seus produtos: junto à estrada põem numa mesa as compotas, as ervas secas, os produtos da época. Mais uma folha com os preços e uma caixinha para se pôr o dinheiro.
Quando vi, pensei que seria algo típico da RDA.
A propósito, ocorre-me uma atitude do proprietário da Land's End, uma empresa de vendas por catálogo: ele diz que, sendo que só 1% das pessoas têm comportamento desonesto, não é por causa desses poucos que a empresa vai começar a tratar todos como possíveis criminosos. Simplesmente confia nos clientes.
(se fosse no facebook carregava já no botão "gosto")

Helena Araújo 10/16/2010 2:23 da tarde  

E mais um exemplo: vi num canyon perdido nos confins do South West americano um pomar mais ou menos selvagem com o mesmo sistema. Uma balança (que nem sequer funciona bem), uma lista de preços, uma caixa para o dinheiro. Por ali só passam turistas, e parece que o sistema funciona.
A vida pode ser bem mais simples quando se confia nas pessoas e se apela à sua consciência.

Pedro Caldeira 10/16/2010 10:16 da tarde  

Bem não é preciso ir tão longe. Em Sintra ao longo de toda a minha infância e juventude havia, por exemplo, na estrada para a Ericeira agricultores a venderem os produtos que tinham à beira da estrada. Escolhia-se, pagava-se e não havia factura nem nada disso. A diferença é que não era legal, mas isso é porque em Portugal o relacionamento com o Estado é sempre muito complicado, porque eles partem sempre do principio que somos todos aldrabões.
E em Fátima há uma coisa do género, para comprar velas vamos a uma "banca" estão lá as velas e o preço e cada um deixa o valor na ranhura, também acho que não há impostos e deve ser legal.

Grey´s 10/16/2010 10:19 da tarde  

Fico sempre maravilhada quando ouço estas coisas porque parecem realmente coisa do outro mundo e nao do mundo onde vivo ..

Miguel Bettencourt 10/16/2010 10:48 da tarde  

@Pedro Caldeira
Vivendo nos Açores, na ilha Terceira, algumas das férias de pré-adolescência eram passadas em Mafra e na Ericeira, onde recordo, também, os agricultores a venderem os seus produtos à beira da estrada.

rosa 10/18/2010 11:46 da manhã  

em portugal, no algarve, compro as laranjas exactamente com esse método! páro o carro na banca que mais me agradar ou onde der para parar o carro, escolho a fruta, deixo o dinheiro no prato (se forem notas estão presas com uma pedra, e sigo o meu caminho. acredita que ainda há sítios assim em portugal. a maioria das bancas não tem ninguém e as coisas funcionam. não há é controlo fiscal.... mas ninguém se importa muito com isso!

Anónimo,  10/18/2010 1:56 da tarde  

Naturalmente que, quando escrevi no 6'8'' sobre economia paralela, não me referia a agricultores que vendam cerejas na berma da estrada. Não é à custa desses pobres homens e mulheres da terra que nos vamos governar. Agora, 33 mil milhões de euros é muito dinheiro, e a verdade é que é esse o dinheiro que anda a circular livre de impostos na economia que passa ao lado das obrigações para com "o Estado".

33 mil milhões de euros que, devidamente taxados, poderiam livrar-nos das medidas que agora estrangulam que vive apenas do seu trabalho.

Zé Maria 10/18/2010 2:29 da tarde  

O que acontece com o nosso estado é que deixa de fora toda essa gente, mas quer sugar quem vende hortaliças. Era aí que eu queria chegar. Se tiveres um negócio da treta, és sugado, se tiveres um grande negócio, muitas vezes off-shore, não te tocam. Quem se lixa é sempre o mexilhão.

Anónimo,  10/18/2010 2:55 da tarde  

Natural e infelizmente. É a lógica do sistema em que vivemos.

Anónimo,  10/18/2010 7:46 da tarde  

Ainda existe este sistema em Portugal. Basta passar pelas estradas nacionais. Tal como em todos os paises da europa é a excepção. E nem queiram compara o rigo fiscal alemão ao nosso

Daniel (montanhacima),  10/20/2010 1:57 da tarde  

Aquilo que descrevi no 1º comentário não tem nada a ver com economia paralela nem com fuga aos impostos.

Esclareço que o sistema de caixinha para pagamento voluntário apareceu para quem fosse ao campo percebesse a mensagem do dono do terreno:

- Não me importo que venhas aqui buscar 1 kg de laranjas ou meia dúzia de morangos mas já agora dá uma ajuda e principalmente não estragues.

A simples inda à "xinxada" passa a ser consentido e de consciência limpa tanto para quem leva como para quem trata o terreno.

As vendas de beira de estrada são outra coisa completamente diferente... Isso assim como se vê nas nossas estradas não existe na alemanha.

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