No fim-de-semana passado fomos de propósito ao Fundão para ver um espectáculo de
Carlos Zingaro e de Francis Plisson, este um dançarino (e julgo que coreógrafo), aquele um fabuloso violinista e "maquinista".
Claro que tínhamos mais para ver no Fundão que, diga-se de passagem, é uma cidade muito atraente, com ar de comunidade estruturada, onde parece que as pessoas vivem com alguma qualidade. Tínhamos o edifício da Moagem, onde decorreu o espectáculo e sobre o qual falarei num outro post e tínhamos o Fundão e as suas imediações, onde fizemos uma corridinha matinal, daquelas de gelar um vulcão, armados em José Sócrates da Beira.
Antes de irmos para o Fundão, como já ficou dito, deixámos os garotos com os avós. Para já, aqui ficam mais 2 imagens desse "deixamento". Gosto particularmente da foto em que o avô aponta o caminho. Tomara que o possa fazer por muitos e bons anos. Estes farois, estas referências, são o que sustenta o edifício da pessoa ao longo da vida.

Lourenço, pensando nas couves da consoada.

O avô aponta o horizonte.
Chegados ao Fundão propriamente dito, fomos de corrida jantar "à aldeia", onde comemos um magnífico bacalhau assado, regado com Quinta dos Currais (que recomendo vivamente). Logo depois fomos até à Moagem, onde o espectáculo estava prestes a começar.
Chamava-se
L'echo de mon corps répété dans le batement d'une aile murmurante.
No palco estava o Carlos Zingaro, ao comando das máquinas, com o seu ar tranquilo, como se nem lá estivesse, e Francis Plisson, de torso nú, quieto como uma estátua.


O ambiente era quente, vermelho como o sangue. Havia uma cama da qual escorrera um sonho escarlate que se derramara por todo o palco, como um mar sobre o qual pairava a figura de Francis, vestindo apenas umas calças de samurai. Havia ainda 2 espelhos irregulares, como janelas amarrotadas, reflectindo aquele oceano de sumo de sonho.

A figura começa a mover-se, sem qualquer som ou música, gerando ruído, como se todo o corpo fosse um microfone gigante. O movimento gerava sons de marulhar, de restolhar de roupas, que iam sendo gravados pelas máquinas de Zingaro e logo repetidos, re-alimentando o movimento do dançarino.

Zingaro era o tranquilo timoneiro daquela nave alucinante, recolhendo os sons de borboleta gerados pelos movimentos de Francis e logo os disparando de novo, excitando cada vez mais o dançarino.

Fomos assistindo a este distúrbio, por vezes alimentado também com alguns sons de violino, com ritmo e violência crescentes, dando a impressão que Francis se iria engolir a si próprio. Os braços pareciam não lhe pertencer, tal era a energia com que se moviam, como asas em alvoroço. Depois, numa espécie de êxtase, foi-se acalmando, abraçando o próprio corpo, deitando-se finalmente no tal leito, escorrendo ele também até submergir no mesmo mar de sonho.
Tivemos ainda tempo de ouvir um belíssimo poema, em francês:
"Je te floretu me fauneJe te peauje te portee te fenêtretu m'ostu m'océantu m'audacetu me météoriteJe te clef d'or [como na Bele et la bête]je t'extraordinairetu me paroxysmeTu me paroxysmeet me paradoxeje te clavecintu me silencieusementtu me miroirje te montreTu me miragetu m'oasistu m'oiseautu m'insectetu me cataracteJe te lunetu me nuagetu me marée hauteJe te transparentetu me pénombretu me translucidetu me château videet me labyrintheTu me paralaxeet me paraboletu me deboutet couchétu m'obliqueJe t'équinoxeje te poètetu me danseje te particuliertu me perpendiculaireet soupenteTu me visibletu me silhouettetu m'infinimenttu m'indivisibletu m'ironieJe te fragileje t'ardenteje te phonétiquementtu me hiéroglypheTu m'espacetu me cascadeje te cascadeà mon tour mais toitu me fluidetu m'étoile filantetu me volcaniquenous nous pulvérisableNous nous scandaleusementjour et nuitnous nous aujourd'hui mêmetu me tangenteje te concentriqueTu me solubletu m'insolubletu m'asphyxiantet me lebératricetu me pulsatriceTu me vertigetu m'extasetu me passionnémenttu m'absoluje t'absentetu m'absurde"Só achei o espectáculo muito curto. De resto foi surpreendente e muito belo.

No dia seguinte tomei algumas imagens do edifício da Moagem. Conto apresentá-las brevemente.
ZM