Este fim-de-semana, como resultado de um convite endereçado a algumas dezenas de escaladores, juntou-se um pequeno grupo de 11 resistentes à intempérie numa excursão ao Barrocal Algarvio, mais propriamente à falésia da Rocha da Pena. Era lá que eu tinha o tal espinho encravado no currículo.
A Rocha da Pena é um lugar que vale uma visita só por si. Para nós, que trepamos rochas, é um paraíso. O interior do Algarve é um primo afastado do outro Algarve, abandonado do lado de lá da serrania, mas é actualmente o único que vale os 16.30 Euros da portagem. Povoações como Salir, Alte, Benafim, valem mais do que Albufeira, Vilamoura e todos os Portimões juntos.
A falésia da Rocha da Pena dá-nos um olhar de pássaro sobre a paisagem algarvia, desde o tranquilo interior até à cosmopolita linha da costa. O silêncio é total e cheira a alfarroba, figos, amêndoas e plantas silvestres.
Logo no Sábado, depois de um aquecimento, e após ir buscar gelo ao café para por num tornozelo aleijado numa queda imprevisível, tentei a tal via que me andava atravessada há tantos anos.
O ritual que antecede a escalada de uma via que queremos encadear (escalar sem dar nenhuma queda) é quase religioso. Ligamo-nos à corda, e com isto ao nosso companheiro de escalada; calçamos as apertadíssimas botas; verificamos o saco de magnésio; revemos dentro da cabeça os movimentos que teremos que conseguir resolver; respiramos fundo e, com algum jeito, concentração e sorte, entramos no flow. O flow é um estado mental de absoluta concentração no problema que temos pela frente. Quando se consegue atingir o flow atinge-se o ponto mais alto da escalada em rocha, tornado-a extremamente gratificante. Parece que tudo se passa dentro da cabeça e parecemos planar sobre as minúsculas saliências da rocha, progredindo até ao topo da via como se não tivéssemos peso.
Desta vez, entrei profundamente no estado de flow e voei até ao top da via sem qualquer esforço aparente.
O grupo que se juntou este fim-de-semana foi um cocktail perfeito de pessoas diferentes. O resultado foi um dos mais divertidos e produtivos fins-de-semana de escalada dos últimos tempos.
Jantámos em Alte e tivémos de sobremesa uma divertida peça de teatro de borla. A assistência total eram 21 pessoas, das quais 8 eram o nosso grupo. O número total de actores era quase equivalente à assistência toda junta. É pena continuar a constatar que o povo português gosta mais de ver as trapalhadas da TVI do que saír de casa para qualquer outro programa. Em Espanha, a povoação de Alte sería mais um dos seus hiper turísticos Pueblos Blancos. A escassos quilómetros da costa, aquela é uma área tão bela quanto esquecida e abandonada. O que será de Portugal daqui a 50 anos?
As fotos não mostram lá muita escalada, mas foi o que se arranjou.
Se quiserem ler outras versões da história, consultem os blogs:
http://lojadoxines.blogspot.com/
http://v-duro.blogspot.com/
http://blogstrawberry.blogspot.com/
Se forem para aqueles lados, percam um dia de praia e vão visitar a zona de que falo. Não se arrependerão.
ZM
bom relato...
ResponderEliminartemos de marcar outro encontro, mas desta vez sem diluvio!!!
xau xau
(nao ando a conseguir enviar as fotos devem de ser muito pesadas, depois marcamos um dia e eu levo um cd para ti)