Invenção infantil
>> quinta-feira, junho 10, 2010

Esta foto foi apanhada tal e qual. Não lhe pedimos para fazer nada nem ele estava à espera que eu fosse fotografar. Este Lourenço é um tratado.
Arrumário era o nome que a pequena Madalena dava aos armários. Este blog é o arrumário electrónico das nossas experiências, emoções e ideias.

Esta foto foi apanhada tal e qual. Não lhe pedimos para fazer nada nem ele estava à espera que eu fosse fotografar. Este Lourenço é um tratado.
Na situação maluca que estou vivendo, soube-me pela vida ouvir este discurso. Já tinha tropeçado nele noutra ocasião, mas agora bateu-me mais forte.
Tenho medo e tenho três filhos, mas não perdi a ilusão de encontrar um trabalho que me apeteça fazer. E continuo ao lado duma mulher fantástica, que veio comigo pelo caminho das pedras.
Como diria o meu amigo David, é preciso é sorte e saúde.
"Pai e filho
Sou o teu pai. Quando te seguro ao colo, entro no teu olhar, passo-te os dedos pelas faces e sinto que também eu tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Agora, enquanto dormes, escrevo-te e imagino que, num instante longe deste instante, chegará um dia em que tu serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Estas palavras são uma corda que une este momento presente e passado a esse momento futuro e presente. Daqui, desta ponta da corda, se der um pequeno puxão nas palavras, tu irás senti-lo aí. Se eu disser verdades, tens duas semanas, és pequenino, eu e a tua mãe amamos-te, tenho a certeza que irás sentir estas verdades aí. No entanto, hoje, aqui, eu não posso saber a maneira como irás sentir estas verdades, estes pequenos puxões, porque eu não sei tudo aquilo que irá acontecer entre este momento e o momento em que serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Seguro numa ponta da corda, mas não sei o seu comprimento, a sua forma ou a sua resistência. Ainda assim, sei, imagino, que estás aí nessa ponta das palavras e quase que tenho vergonha de falar contigo. É difícil escolher palavras para falar com essa pessoa em que te tornaste. Ainda não conheço esse rosto que lê cada palavra deste meu embaraço. Além disso, tenho medo que estas palavras envelheçam mal ou que eu próprio envelheça mal. Talvez encontres aqui adjectivos que deixem de se usar. Talvez comeces a ler estas palavras e talvez, na tua ideia, eu seja alguma coisa que deixou de se usar. Irás olhar para aquilo em que me tornarei e tentarás entender aquilo que quis dizer-te hoje pelos significados que, nessa idade, tiver dado às palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. No dia em que leres estas palavras, saberás muitas coisas. Eu também já soube muitas coisas. Ser pai não é apenas saber, ser pai é compreender. Por isso, espero que possas reler estas palavras num dia em que sejas pai também. Eu, que sou o teu pai, tive um pai e tive um avô. Tão bem como eu sei que o meu pai era uma pessoa, quando fores pai, saberás que eu, aquele que hoje te escreve e aquele que há duas semanas começou a viver paralelo a ti, sou uma pessoa. De mim, espera amor e espera uma pessoa. Como as pessoas, às vezes, engano-me, não sei respostas, tenho medo, tenho frio, minto, faço coisas feias, desisto, escondo-me e fujo. Eu compreendo que tu irás enganar-te muitas vezes, não saberás respostas, terás medo, terás frio, mentirás, farás coisas feias, desistirás, esconder-te-ás e, quando todos te procurarem, terás fugido. Eu compreendo-te. Segurei-te ao colo, entrei no teu olhar. Foi há menos de uma hora. Passei-te os dedos pelas faces, tentando imaginar a forma como o teu rosto vai crescer. Estas palavras serão o espelho do teu rosto. O teu rosto ficará parado sobre elas. Gostava que soubesses que, hoje, quis tanto ver esse teu rosto que lê. Se puderes, passa agora os dedos pelas tuas faces. Talvez no dia em que leres estas linhas tenhamos deixado crescer entre nós o pudor de nos tocarmos com afecto simples e puro. Pai e filho. Por isso, passa os dedos pelas faces para sentires aquilo que sentiste hoje, duas semanas de vida, pequenino e amado. Ou então, chama-me para junto de ti. Na outra ponta destas palavras, serei outro. Terá passado tempo que, agora, não posso imaginar. Mas, nesse dia, quando chegar a estas palavras que me preparo para deixar agora, assim que olhar para elas, lembrar-me-ei daquilo que é estar a escrevê-las, ter trinta anos e estar a escrever enquanto tu, com duas semanas, estás a dormir. Será como se eu, hoje, fosse também filho desse eu que irá ler estas palavras. O rosto que tenho hoje estará dentro desse rosto que terei da mesma maneira que o teu rosto de criança estará também naquele de quando leres estas palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. Chama-me para junto de ti. Mostra-me estas palavras que escrevi hoje e pede-me para te passar os dedos pelas faces com o mesmo carinho e com a mesma ternura com que hoje toquei os teus contornos de menino. Tenho a certeza que não terei esquecido. Por mais que aconteça entre hoje e esse dia, por mais mortes e terramotos, tenho a certeza que não terei esquecido. E obriga-me a jurar que nunca deixaremos crescer entre nós um pudor que impeça de nos abraçarmos, de nos beijarmos, de passarmos os dedos pelas faces um do outro. Pai e filho. Eu sou o teu pai. Tu és o meu filho."
José Luís Peixoto
Publicado originalmente no Jornal de Letras.
Postado aqui enquanto tinha o Simão ao colo, com apenas 1 semana e 2 dias de vida. É a ele que dedico este texto. Só não tenho 30 anos...

Ontem assisti a uma performance baseada no livro Morreste-me, do escritor José Luís Peixoto, no Teatro Angrense, seguida de uma conversa da audiência com o autor, que se veio a revelar muito, muito interessante.
Eu já tinha lido vários livros de José Luís Peixoto (5, para ser mais concreto), e talvez também por isso, bebi as suas palavras com muito agrado e emoção.
José Luís Peixoto fala da morte, da vida, do amor, da família, com uma clarividência, com uma desenvoltura, uma profundidade tocantes. Apetece reler algumas obras.
Parece que está uma nova para saír.
O blog de José Luís Peixoto aqui.
Mais uma excelente apresentação do TED, sobre o que estamos a fazer aos oceanos. Está na altura de deixarmos totalmente de comer peixe pescado. Tal como acontece com a carne, temos que nos limitar a comer o que conseguirmos "cultivar". Infelizmente, começo a estar convencido de que o Homem só mudará a sua forma de funcionar quando já não houver volta a dar.
Vejam também o site de Brian Skerry.
Um livro extraordinário, de valter hugo mãe, que acabei de ler na terça-feira.
Fala da velhice, da amizade, da descoberta da vida, às portas do seu fim. Fala da fé e da forma saloia como alguns a vivem. Fala da morte, evidentemente, e do medo que lhe temos, dos pássaros negros que provavelmente povoam os sonhos de todos os velhos.
Tem aquela linguagem que dá prazer como um bom vinho. Saboreia-se página a página e fica-se saciado no final. Recomendo sinceramente.
Comprei aqui.
A outra novidade que o Simão trouxe foram uns patins em linha, vindos do continente, que os manos não descalçam nem para comer.



A chegada do Simão não nos pode deixar esquecer os outros manos. No fim-de-semana fomos ao Relvão, o já muito divulgado parque infantil de Angra, junto ao Monte Brasil.
Aqui ficam algumas fotos.





Aqui ficam mais algumas fotos do Simão.
A galeria completa, está aqui.














Uma das principais diferenças de ter um filho aqui em Angra, relativamente aos outros dois que tive em Lisboa, está no papel que deixam o pai desempenhar.
Aqui, o pai não serve para mais do que fazer o filho e levar a mulher ao hospital. Depois, deverá ir dormir para o carro ou calmamente para casa, que logo o avisam quando a criança nascer.
Como devem imaginar, não me apetecia nada representar o papel que me estava reservado.
A mãe entrou na maternidade às 3:00h da manhã, mas eu fiquei no corredor, acompanhado como documentam as fotos abaixo.




Bem sei que não são estas as fotos que alguns dos meus leitores queriam ver neste momento, mas eu sinto-me ultrajado nos meus direitos de pai e apetece-me desabafar.
Não tive outro remédio senão ir para casa quando percebi que a dilatação ainda iria demorar umas horas. Às 9:00h da manhã estava de volta ao mesmo corredor e fiz saber que lá ficaria até que me chamassem para partilhar com a minha mulher o processo todo do parto.
Parece que lhe disseram que eu não queria arredar pé e acabaram por ser bastante tolerantes e simpáticas, deixando-me ir quebrando "as normas". Tive a impressão (poderei estar enganado) de que fui o único pai a assistir ao parto naquele dia. Posso dizer que foi o parto mais difícil que fiz, porque a mãe não quis epidural (da última vez a coisa não tinha corrido bem). Posso ainda dizer que a mãe foi uma verdadeira heroína e que me honra muito ter tido o privilégio de ser o pai dos seus três filhos. Percebi que a coisa, desta vez, doeu um bocado, mas ela aguentou estoicamente e eu quero crer que a minha presença foi determinante para ela.
Aqui fica também uma homenagem fotográfica à personagem deste dia:
Fala-se muito por cá da questão da violência doméstica. Eu acho que é todo o papel da mulher que está muito pouco valorizado e que é daí que vem o mal. A forma como o pai é posto fora da maternidade não contribui um cêntimo para alterar este contexto. Penso que este tipo de mudança social tem que ser conduzido de cima para baixo (top down) e o hospital tem um peso muito importante nessa acção. Percebo que num local onde poucos pais me parecem interessados em ser mais que condutores do carro que leva a mãe à maternidade, o hospital não esteja preparado para os "modernos", mas o contrário também é verdade: num hospital que não facilita, não me parece que o número de pais interessados em participar vá aumentar. É uma pescadinha de rabo na boca.
Sabem quanto tempo tem o pai para visitar o seu filho? Dois períodos por dia: das 15:00h às 16:00h e das 18:30h às 19:00h. Como querem que o pai se envolva nestes primeiros dias e nos cuidados da criança? É impossível dar-lhe banho ou mudar-lhe uma fralda com uma visita de hora e meia por dia. Sendo o meu terceiro (e supostamente último) filho, apetecia-me mais do que nunca poder gozar estes dias iniciais da sua vida, mas isso aqui está-me totalmente vedado. Sinto-me verdadeiramente prisioneiro de costumes que considero totalmente anacrónicos.
Não podia deixar de dizer isto aqui.
Uma última foto, que é a vista do quarto onde eles estão neste momento, como se estivessem na cela de uma prisão.
PS: já tenho mais uma carrada de fotos, que partilharei mais logo.


A coisa correu bem. Estamos exaustos.
Quando for caso disso, posto mais fotos.
ZM
Quem nos lê habitualmente sabe o quanto nos tem custado não ter por cá uma escola que se aproximasse daquela de onde viemos.
O Chá de Sintra faz hoje uma descrição dessa escola. Trata-se do Colégio Catarina de Bragança, no Morelinho, em Sintra e, já o disse, é a melhor escola do mundo.
Mais uma fantástica apresentação de Sir Ken Robinson sobre o tema da educação. Percebi melhor porque é que eu me sinto tão fora do meu tempo: eu deixei de usar relógio de pulso em 1983.
Via A Barriga.
Fotos resultantes de passeios deste fim-de-semana prolongado pelo feriado do Santo Espírito e da Região.
Monte Brasil
O cata-vento da fábrica artesanal do queijo Vaquinha. Um local a não perder.
O toiro do Centro Cultural. Fomos lá para ouvir um concerto que afinal era na Secretaria Regional da Educação. Foi pena, mas salvou-se esta foto e a seguinte. Se olharem com atenção para o horizonte, vêem lá mais duas ilhas.
Angra nocturna, vista do Centro Cultural.

Estas duas são das Furnas do Enxofre, um local belíssimo onde nunca vimos outros visitantes além de nós.
O abismo dos Biscoitos.
O malandreco do Lourenço, a aquecer-se depois de uma banhoca nos Biscoitos.

Reparem na transparência da água nestas fotos. Isto aqui é sempre assim. A água dá vontade de beber.
Fomos convidados pela mãe da Alice para fazermos uma festa conjunta de aniversário, na Quinta do Galo, que eles já tinham reservado. Como não tínhamos a certeza de poder lá estar (não fosse o Simão querer nascer entretanto), aceitámos com muito gosto, porque evitávamos ter que cancelar tudo à última hora. Finalmente, quem nos estragou mais os planos foi uma virose terrível que anda a assolar os intestinos da criançada aqui da ilha. Anda tudo doente. Acabaram por só lá ir 3 amigos de uma sala de uma vintena.
Aqui ficam alguns registos que fiz durante a festa. Se quiserem ver mais, vão ali ao lado, ao Flickr do costume.



A Alice
A mãe, o aniversariante e o Simão (dentro da mãe).




© Blogger template Simple n' Sweet by Ourblogtemplates.com 2009
Back to TOP