Na Sexta-feira santa, uma vez que os museus nacionais estavam fechados pelo 16º ano consecutivo (desculpem os funcionários, mas já ninguém tem pachorra para esta luta, da qual já nem se deve saber as causas) fomos fazer uma visita ao Oceanário, para mostrar à pequena Madalena, agora com quase 4 anos, os seus tão amados peixes. Uma das suas saídas mais divertidas foi a de dizer:
- Ó mãe esta manta tapa os outros peixes quando eles estão a dromir?

As crianças com menos de 4 anos não pagam entrada, mas os pais também não deviam pagar, porque só temos meia-visita. As crianças acabam por se aborrecer de tanto peixe e temos sempre que abandonar o recinto sem conseguir ver o andar de baixo.

No regresso desta visita, decidimos passar pela Vila Velha de Sintra, para comprar pão para o almoço. Os acessos ao centro histórico estavam caóticos, devido ao estacionamento anárquico de carros (sobretudo espanhóis) por todo o lado. Ao fim de algumas manobras para fugir aos acessos mais condicionados, deixei a minha mulher (grávida de 7 meses) junto à padaria e parei o carro um pouco adiante, mais ou menos em frente ao Café Paris. Não havia mais carros ali encostados, o largo estava desimpedido e eu nem desliguei o motor do carro.
Passados uns minutos fui abordado pelo policia de serviço, dizendo que eu não podia estar ali parado. Até aqui tudo mais ou menos habitual.
Expliquei-lhe que estava apenas à espera da minha mulher, que tinha ido comprar pão. Ele disse que eu tinha que prosseguir. Eu subi um pouco o tom e disse que estava à espera da minha mulher, que estava grávida de 7 meses e tinha ido comprar pão. Ele disse que eu devia ter pedido para parar ali. Assim, como não tinha pedido previamente tinha que seguir. Eu sabia que se seguisse só voltaria a conseguir parar o carro na Ribeira e que teria que subir o Arraçário a pé, com uma criança de menos de 4 anos ou abandoná-la no carro para vir recolher uma pobre mãe, grávida que nem um comboio.
Voltei a dizer, já um bocado enervado, que morava ali já em baixo, estava à espera da minha mulher, grávida de 7 meses, que tinha ido comprar pão, e que além disso tinha uma criança no carro que não podia abandonar.
Ele disse que eu tinha que prosseguir porque não tinha pedido previa e encarecidamente ao magnânimo agente da autoridade para encostar a viatura se faz favor (esta parte já sou eu a exagerar, mas era o que o homem queria que eu tivesse feito). Eu ainda perguntei porque razão ele me ia multar, qual era o motivo. Ele disse que não me ia multar, estava era a dar-me uma ordem. Eu disse o que já todos perceberam, que não havia nenhuma razão para ele me mandar seguir excepto o facto de estar a ser teimoso.
Ele mandou-me seguir…
Então, quando já só me apetecia passar à violência, lembrei-me que gosto mais de dormir na minha cama, na companhia da tal mulher muito grávida, do que num catre de esquadra de subúrbio, na companhia de um qualquer meliante barbudo, com mau hálito e com apetites sexuais desviantes. Meti a primeira e preparei-me para iniciar a marcha.
Só que entretanto a Madalena desata a chorar, assustada com a altercação. Claro que isso me fez saltar definitivamente a tampa. Parei o carro, saí do meu lugar, tirei a criança do carro e tentei acalmá-la. Afastei-me uns metros do carro, do polícia e da altercação até conseguir que a Madalena recuperasse a tranquilidade. Entretanto já a minha mulher voltava ao carro, arrastando a sua volumosa barriga. Sentei a Madalena no carro, sentei-me ao volante e disse ao senhor agente: “Obrigado e boa Páscoa”. Pareceu-me ter visto no seu rosto uma expressão envergonhada quando me respondeu: “igualmente”.
A única marca negativa que trouxe desta história é que a Madalena não conseguiu esquecer a discussão. Veio até casa a pedir-nos entre lágrimas que lhe prometêssemos que não voltávamos a comprar pão naquele “chuper mercado”. Muitas horas depois do ocorrido e após inúmeros pedidos de que não voltássemos a estacionar ali o carro, que fossemos sempre comprar pão a outro lado, etc, estávamos a arrumar a mesa do jantar e ela teve como tarefa trazer o pão de volta para a cozinha. Percebemos o quanto o episódio lhe continuava às voltas na cabeça quando ela disse, com os olhos a brilhar, enquanto nos mostrava os restos do pão do jantar:
“Amanhã não vamos precisar de comprar pão, pois não?”
Boa Páscoa para todos, incluindo o senhor agente, se faz favor.
ZM
Read more...