Janelas
>> quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Foto by zm - Mucifal, Sintra
Não gosto de casas mas gosto de janelas. Há qualquer coisa de sagrado numa janela, um altar primordial sobre os horizontes das possibilidades humanas, uma revelação que separa a luz das trevas. A janela representa uma conquista civilizacional, indica uma sociedade que alcançou segurança e paz, que honra os acordos territoriais estabelecidos com os vizinhos; e que confia num comportamento semelhante por parte desses vizinhos. Recordo de ter atravessado muitas povoações no Afeganistão cujas casas não possuíam o conceito de janela: uma abertura na parede não era um luxo, era um perigo. Imagino que os habitantes dessas casas não sentissem a falta de janelas, porque simplesmente não deviam pôr a questão de, um dia mais tarde, as colocar.
Uma janela tem, por definição, uma parede a emoldurá-la. A matéria e a sua ausência, a leveza e o peso contrapostos. Mas nem sempre a parede define a janela por oposição. Por vezes a parede e a respectiva janela podem concorrer para a mesma sensação de liberdade e movimento: é o caso da parede do compartimentos de um comboio, que atravessa campos de trigo soviético, que fura desfiladeiros andinos, que serpenteia pelas colinas etruscas que deram a cor, séculos mais tarda, à pintura mais serena do mundo: os frescos de Piero della Francesca. Uma janela pode ser a escotilha de um cargueiro, dar vista sobre aguaceiros equatoriais, sobre ondas preguiçosas que a proa do navio cruza em diagonal, sobre o cromatismo sonolento de contentores alinhados em busca de portos orientais.
Para lá da janela estende-se o mistério da paisagem. A casa encerra o espaço, a janela desvenda e oferece o mundo.
Texto de Gonçalo Cadilhe, na Única do Expresso de 04.02.2006
A julgar pelo tamanho de algumas janelas da arquitectura português suave, que se vê tanto por aí, há muita gente em Portugal que não está de bem com os vizinhos.
Uma das coisas mais irritantes são as janelas de vidro duplo com friso de plástico no interior, divididas aos quadradinhos, como se o vidro aínda fosse mais caro em grandes panos do que em minúsculas peças que enquadriculam a paisagem. É uma daquelas tradições que muitos cumprem sem se questionarem, mas que é profundamente absurda nos dias que correm.
ZM































Agora é o Calimero que precisa de encontrar uma família de acolhimento. Eu confesso que já lá tenho em casa demasiadas patas para me poder dar ao luxo de acrescentar mais 3, mas desejo ao Calimero sorte no seu processo de adopção.


















