O Desejo e o mar

>> terça-feira, junho 14, 2005

Não queria deixar de fazer uma pequena homenagem ao poeta Eugénio de Andrade:


Esta foto é também um piscar de olho ao blog das Azenhas ;-)

O DESEJO

O desejo, o aéreo e luminoso
e magoado desejo latia ainda;
não sei bem em que lugar
do corpo em declínio mas latia;
bastava abrir os olhos para ouvir
o nasalado ardor da sua voz:
era a manhã trepando às dunas,
era o céu de cal onde o sul começa,
era por fim o mar à porta - o mar,
o mar, pois só o mar cantava assim.

(O OUTRO NOME DA TERRA)

Eugénio de Andrade

ZM

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Andanças do fim de semana - parte 1

>> segunda-feira, junho 13, 2005

Este fim de semana, para mim, foi de 4 dias. No primeiro fui à praia, onde registei esta divertida imagem do super homem a aterrar.



No segundo dia - Sábado - tentámos ir ver a exposição do Joshua Benoliel, que faz parte da Lisboa Foto 2005, na Cordoaria, mas esta exposição, vá lá saber-se porquê, também fez fim de semana prolongado. Então rumámos ao CCB, onde também está patente uma colectiva que faz parte da Lisboa Foto. Confesso que não me encheu as medidas. Tem alguns momentos altos, outros são um valente bocejo. Quem se divertiu bastante foi a Madalena, que passou a hora do almoço a dar pão aos pardais da explanada do CCB. Aqueles pardais são mesmo atrevidos!



Nesse mesmo dia aínda tivémos tempo de visitar o recém-inaugurado Parque das Merendas, na Vila de Sintra.





Tem alguns recantos muito agradáveis, mas acho que lá falta qualquer coisa.

Amanhã conto-vos mais coisas deste fim de semana cheio de actividade.

Passem por cá.

ZM

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O Túmulo dos Dois Irmãos

>> quarta-feira, junho 08, 2005






O Túmulo dos Dois Irmãos é um monumento medieval, que se encontra hoje no lado direito da estrada que sobe do Ramalhão para S. Pedro, logo após a bomba de gasolina.

O nome deste túmulo está ligado a uma lenda que diz que dois irmãos se enamoraram pela mesma mulher, sem saberem um do outro. Uma noite, um deles encontra o outro debaixo da varanda daquela que lhe prometera fidelidade e matou-o. No dia seguinte descobriu que se tratava do seu irmão, que lhe era tão querido. Com a mesma espada com que o matara, suicidou-se sobre o seu cadáver.

No entanto, quando em 7 de Abril de 1830 se abriu o túmulo, sob o olhar de D. Miguel, verificou-se que apenas continha um esqueleto incompleto, pelo que aquela história deve ser mesmo uma lenda, que apenas deu nome ao monumento.

Segundo o Dr. Fernando Castelo Branco, autor de ”O Denominado Túmulo dos dois irmãos”, compilado em 1978, o sepultado seria um templário de categoria elevada.

O túmulo estava inicialmente mais junto do Ramalhão, em posição obliqua. Em 1930, por obras na estrada, passou para uma segunda posição, ainda do lado esquerdo da estrada, mas mais longe do Ramalhão. Nessa altura já não tinha a cruz que hoje se vê.

O Guia de Portugal, de 1880, já fala da sua destruição, dizendo que uns rapazes, em um dos seus caprichosos e inconsideráveis devaneios, imaginaram que a cruz devia ser alvo das suas pedradas.

No livro “Sintra do Pretérito”, de Felix Alves Pereira, de 1957, diz-se que o Túmulo estava do lado esquerdo da estrada, mas continuava a não ter o cruzeiro.

Em 2 de Fevereiro de 1976 foi para o local que hoje ocupa. É esta a data da lápide.

A 10 de Junho de 1978 o túmulo foi destruído por um carro que se despistou, quando se dirigia ao hospital para transportar um homem que tinha partido um dedo. Acabaram por ir os dois ocupantes para ao hospital.

Nessa altura as estelas foram roubadas e o túmulo reconstruído sem elas. José Alfredo da Costa Azevedo (a minha fonte habitual nestas matérias), escreveu vários artigos dando conta desse roubo e ameaçando com investigações policiais. Parece que a coisa deu efeito e os ladrões devolveram as estelas ao seu lugar na noite de 12 para 13 de Outubro de 1978.

Deve ser o monumento medieval mais movimentado do mundo. Esperemos que agora fique sossegado por muitos e longos séculos.

Quando por lá passarem, dêem uma mirada de soslaio e lembrem-se das aventuras por que já teve que passar.

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Vertical

>> segunda-feira, junho 06, 2005

Falésia das pedreiras - Arrábida. Um dos locais que poderão ser interditos à prática da escalada.

Alguns desportos de ar livre parecem-me particularmente apaixonantes pela relação que se estabelece com o meio em que decorrem. Posso estar enganado, mas não consigo encontrar num campo de futebol ou numa pista de atletismo uma ligação afectiva com o meio como acontece com desportos de neve, com o surf ou, no meu caso particular, com a escalada em rocha.

Quando se trepa por uma falésia vertical, sustentando o peso do corpo, com grande esforço físico, sobre pequenas saliências ou reentrâncias da rocha, tentando controlar o medo de cair (embora as quedas actualmente não impliquem risco real), sentimo-nos estranhamente ligados ao “corpo” da rocha. A forma como a sua textura nos fura a pele dos dedos, o facto de frequentemente a sentirmos até com o rosto, cria uma ligação afectiva, que toca muitas vezes as raias da paixão. Sei que isto pode parecer absurdo para quem não teve o privilégio de o sentir, mas acreditem que não sou o único a descrever as coisas desta forma.

Sonhei muitas vezes que conseguia voar, julgo que é um sonho universal, sobretudo quando somos mais novos e os nossos sonhos se deixam passear por áreas que mais tarde consideramos “infantis”. No meu caso o acto de voar nunca era uma coisa fácil, era como se fosse uma natação pelo ar acima, que exigia esforço e concentração para não voltar a cair na cama com estrépito, acordando meio baralhado. A coisa mais próxima que encontrei na vida real desse sonho frequente é a escalada em rocha.

Quando nos preparamos para trepar uma determinada “via”, seguimos um ritual que nos vai preparando lentamente para o desafio seleccionado. Ligamo-nos à corda (e através dela ao nosso parceiro de cordada, em cujas mãos depositamos integralmente a nossa vida. Haverá união mais forte no desporto?), preparamos as peças de equipamento que nos servirão de protecção em caso de queda, colocamos uns sapatos apertadíssimos, que parecem saídos de câmaras de tortura medievais, secamos as mãos com magnésio que transportamos à cintura e descolamos.

Os movimentos que se fazem para escalar uma via envolvem todo o corpo. As mãos e os pés estão em contacto com a rocha, mas sentimos cada fibra muscular como se dançássemos. Vejo dentro da cabeça cada parte do corpo e penso já na próxima presa que preciso de conseguir agarrar para dar mais um passo na direcção oposta à da força da gravidade. Temos sempre muito ar à nossa volta. A concentração é quase opressiva. Pensa-se tanto, em tantas coisas simultaneamente, que não sobra espaço para as preocupações mundanas. Chegados ao topo, já confortavelmente sentados na ponta da corda, despejamos a pressão e damos conta que ficou tudo vazio. Só sobra mesmo o intenso prazer da conquista e a memória dos movimentos do corpo que lhe deram origem. Em determinadas vias particularmente belas, naqueles momentos mágicos do fim do dia, em que o calcário já está doirado pela luz rasante do Sol, já me aconteceu chorar. Convulsivamente.

Se isto não é paixão, o que será?


Ontem estive a escalar, e tenho ainda o prazer dessa memória a dificultar-me o arranque da semana. Hoje ouvi na rádio falar dos planos de ordenamento das orlas costeiras. São instrumentos cegos, que pretendem proteger a costa (incluindo algumas falésias importantes) de tudo e de todos. Não tiveram obviamente em conta que há gente para quem as falésias são uma parte fundamental da vida. Tenho medo do que aí vem.

ZM

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O Arrumário pelos seus leitores

>> sexta-feira, junho 03, 2005

ou Crónica da canícula e do briasco.

O leitor Paimica tem muitas histórias para contar, como podem ver no Volúpia Azul. Desta vez deixou um episódio num comentário ao meu último post, que eu trago agora para um local mais visível.

A propósito de Sintra e da bruma, peço autorização para "arrumar" uma pequena e ilustrativa estória da serra e que seguramente não é única.
Estávamos em pleno Julho, de uns anitos atrás. O calor era de suar as estopinhas e ainda não tinham inventado o IRS. A nossa casa na altura era uma estufa. A Susana estudava para os exames, mas com aquele calor os "dias" ainda não eram "maiores". Então surge a refrescante ideia. Vamos para a serra de Sintra. Mesa e cadeiras de campismo (na altura os hóteis tinham poucas estrelas) ao ombro, um livrito debaixo do braço e ala que se faz tarde. Escolhemos a zona perto da Malveira da Serra. Montada a sala de estar, ela estudava, nós liamos e o Daniel não parava quieto, já se estava a preparar para ir pela "montanha acima". Enfim fresquinho! Sim, a sensação era essa. Mas, sem que o ponteiro dos minutos tivesse tempo de dar uma voltinha sequer, já o pessoal estava ensacado de tudo o que era peça de roupa. Como o objectivo era esfriar, pouco havia para esquentar. Rapidamente ficámos a tiritar de frio. Frio mesmo. Antes de sermos transformados em refresco demos à sola. Agora, quando tenho calor, basta lembrar-me da Serra de Sintra para sentir um imediato fresquinho.


Aqui fica o meu sincero agradecimento pela colaboração e o convite para que se repita sempre que para tal se sentir motivado.

Bom fim de semana.

ZM

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...eu sou da bruma.

>> quinta-feira, junho 02, 2005

Paço Real da Vila, visto do Arraçário - zm - 02.05.2005

Palácio de Monserrate, perdido no nevoeiro - zm - 02.05.2005

Do outro lado da Serra, há um frio que nos acorda.
Respira-se com mais vigor.

Se puderem, passem por lá...

ZM

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Era uma vez uma cabra montês.

>> quarta-feira, junho 01, 2005

Seguindo uma sugestão do Azenhas, aqui fica o conto infantil do Arrumário, para este dia da criança. Podem ver os outros contos publicados hoje no Webring da Bruma e da Maresia:

Azenhas do Mar
Mente Positiva
Desconhecida
À Beira Mar
Colares
Para Sintra
Contra-Indicado


Era para estar aqui uma ilustração da grande Ana Ventura, mas ela não teve tempo. Fui sacar esta aos cliparts online do tio Bill Gates, a quem agradeço francamente

Era uma vez um coelhinho que saíu de casa para ir à horta buscar hortaliças para fazer um caldinho.

Quando veio de volta, com as hortaliças num cestinho encontrou a porta de casa fechada. Achou aquilo muito estranho e bateu à porta. Lá de dentro ouviu-se a voz de uma cabra:

- Aqui ninguém entra, eu sou a Cabra Montês que te salta em cima e te faz em três!

O coelho, muito assustado, foi à procura de ajuda. Encontrou o boi e pensou: Este é que me vai ajudar, é tão grande, tem tanta força...

Contou-lhe toda a história e quando chegou à parte da Cabra Montês, o boi disse: “Eu cá não te posso ajudar, que tenho muito medo.”

O coelho foi de novo à procura de alguém que o pudesse ajudar. Encontrou o Cão e pensou que este seria suficientemente valente para o ir ajudar, mas o cão, quando ouviu falar da Cabra Montês também não se quis meter no assunto.

O coelho ainda pediu ajuda ao galo, já sem grande esperança, mas este disse que tinha um javali ao lume e tinha que ir para casa a correr. Não era que tivesse medo, só que não estava mesmo disponível.

Quando o coelho já não sabia o que fazer, passa a formiga, muito alegre, com a trouxa às costas. A formiga perguntou-lhe porque estava triste, e o coelho, sem esperar qualquer ajuda, contou-lhe toda a história. A formiga disse-lhe de imediato que o ia ajudar.

Dirigiram-se à porta de casa do coelho e bateram à porta. A Cabra disse com ar ameaçador:

- Quem é?

- Sou o Coelho, que fui à horta apanhar hortaliça para fazer um caldinho. Estou aqui com a formiga e queria entrar na minha casa.

- Aqui em casa ninguém entra. Está cá a Cabra Montês que lhes salta em cima e os faz em três.

Então a formiga disse:

- E eu sou a Formiga Rabiga, que te salta em cima e te fura a barriga!

Enquanto a Cabra escarnecia desta ameaça, a formiga subiu ao telhado, desceu pela chaminé, saltou para a barriga da Cabra e furou-lhe as tripas. De seguida abriu a porta ao Coelho, que entrou muito contente, encontrando a Cabra estendida no chão.

O Coelho fez o tal caldo, deu a Cabra ao Saraiva (em Nafarros) para fazer cabrito assado, porque ele era vegetariano e ofereceu almoço à formiga. Parece que à hora da sesta, a coisa aqueceu entre ambos, mas isso não é para contar no dia da criança, senão ainda vêm aqueles gajos da protecção da família, e fazem uma petição para fechar o Arrumário.


Feliz dia da criança para todos os petizes.

Um beijinho especial para a Madalena.

Um grande abraço ao Pedro.

ZM

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A Primavera deu mais um fruto

>> sexta-feira, maio 27, 2005

Podem acrescentar à vossa lista de favoritos um novo blog cujo autor tem credenciais suficientes para nos fazer ansiar pelo que aí vem.

Já podem ver pela estreia que não se trata de mais do mesmo.

Falo da Volúpia Azul e desde já mando daqui um grande abraço ao "Jordi". Farás seguramente parte da minha restrita colecção de leituras diárias.

Vão passando por lá.

ZM

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El Llanto De Las Sirenas

>> quarta-feira, maio 25, 2005

Viven...
En tus sueños
Nacen...
De tu llorar...

Plata...
Lambre eterna
En sus ojos...
Brilla el mar...

Siente...
En su canto
El llanto...
De su soledad...

Danzan...
En silencio
Esclavas...
De su soñar...


El Llanto De Las Sirenas
Narsilion - Nerbeleth (CD-Caustic Records-2004)



Uma banda desconhecida, que me faz ferver o líquido dos ouvidos.

A descobrir...

ZM

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A Quinta do Cosmo

Encontram-na na estrada de Colares, entre Galamares e o Vinagre, do lado esquerdo da estrada, no sentido Sintra Colares. Está numa zona em que os carros passam com muita velocidade, por isso ninguém repara que lá está. Por outro lado é preciso ter algum cuidado a estacionar ou atravessar a estrada, porque fazem daquele troço uma via rápida.

Trata-se de um velho solar quinhentista, do qual já só restam algumas ruínas, entre as quais o portão principal e mais algumas edificações.



É curioso como afixaram esta placa na parede de um imóvel de valor concelhio, mas enfim...



Os dois edifícios cilíndricos que aqui vemos teriam servido de prisão.



Além da porta e destes edifícios, resta apenas uma empena perdida, com uma janela para a Serra e este jardim que aqui vemos, actualmente integrado numa moradia, chamada Passo do Cosme.





Apesar do estado de ruína em que se encontra, ainda se reveste de um poder evocativo que nos transporta aos recuados tempos do esplendor do solar de que era a entrada nobre e faz-nos pensar nas grandes festanças que ali se teriam dado, em que os grandes, servidos por criados de libré, comiam à farta, enquanto que os outros que para eles trabalhavam passavam, passe o plebeísmo, “fome de rabo”. [José Alfredo da Costa Azevedo]

Embora conhecida por Quinta do Cosme, o nome correcto será Quinta do Cosmo por ter pertencido a Cosmo de Lafetá, filho de João Francisco de Lafetá. Este foi um comerciante de Milão, que veio para Portugal no reinado de D. Manuel I (1495-1521), e enriqueceu a exportar para a Europa bens vindos da Índia. Terá sido elevado a fidalgo já por D. João III (1521-1557) e sabe-se que terá morrido entre 1571 e 1597.

O primeiro proprietário da Quinta do Cosmo foi Cosmo de Lafetá, filho do mencionado João Francisco. O primeiro registo na conservatória foi em nome de Francis Cook, primeiro Visconde de Monserrate, em 20-12-1879, que a deixou em herança a Herbert Frederick Cook, que por sua vez a vendeu a António de Almeida Guimarães, em 1922. Este morreu em 1937, deixando a quinta aos herdeiros. De acordo com José Alfredo da Costa Azevedo, no seu livro Recantos e Espaços, em 1997 ainda a Quinta do Cosmo estava nas mãos dos herdeiros de António de Almeida Guimarães. Hoje não sei de quem será.

Pormenor de uma porta rústica, que deve ter pertencido ao edifício original, com gateira e tudo.
Casa mais recente, que faz também parte da quinta.

Junto a esta quinta cresceu entretanto um piroso condomínio, que não merecia um nome de tanta memória, mas isso é mau feitio meu…

ZM

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Lhotse

O João Garcia lá conseguiu conquistar mais um cume com mais de 8.000m de altitude. Desta vez foi o Lhotse, vizinho do Everest. Já vai em 6. Podemos dizer que só lhe faltam 8. Provavelmente para o ano há mais.

No diário do jornal publico, dá para perceber que a coisa não foi propriamente fácil. Este relato nem parece escrito pelo Garcia, falta-lhe a contenção habitual. Ou foi por ter sido escrito muito a quente (neste caso a frio!) ou aquilo foi mesmo do mais duro que o nosso luso alpinista já apanhou pela frente.

Fiquei sem fôlego...

ZM

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Tia Amélia, o rescaldo

>> terça-feira, maio 24, 2005

Hoje há mercado em Sintra. No caminho para o escritório fiz um pequeno desvio e deixei à Tia Amélia a foto do meio das 3 apresentadas. Deviam ter visto a cara dela!
Apontava, orgulhosa, para a imagem impressa e dizia para uma cliente (ou amiga): "Olha o portão da minha casa!".
Há formas tão simples de dar conforto às pessoas.
O que é preciso é a gente conviver, não é?

ZM

PS: Obrigado pelo vosso feedback no post anterior. Não se habituem, porque isto não vai ser sempre assim.

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A Tia Amélia

>> segunda-feira, maio 23, 2005

Indo eu, indo eu a caminho…

Não, não foi em Viseu, foi numa das mais belas e inexploradas zonas da Serra de Sintra, onde vou dar os meus passeios de BTT: a área entre Galamares e a Eugaria.

A ligação mais curta entre aquelas duas povoações é um caminho por onde não passam carros, que tem uma rampa de terra com um declive bastante acentuado, ainda junto a Galamares. No passado Domingo, subia eu esta rampa a pé, com a bicicleta pela mão (podem daqui inferir o elevado porte atlético do artista), quando avisto, já quase no final da rampa, uma mulher ajoujada com um carrego de volumosos sacos, subindo vergada o caminho. Ao cruzar-me com ela, cumprimentei-a e ela disparou de imediato:
- Você é daqui? Já sabe o que aconteceu em Sintra?
Começou assim uma conversa cujo conteúdo eu não vou revelar na totalidade, porque não se enquadra no âmbito editorial deste blog e poderia devassar a privacidade das pessoas envolvidas.
O facto é que a Tia Amélia (assim se chama a senhora) estava muito impressionada com os recentes e trágicos acontecimentos no Mercado de Sintra, onde vende flores. Mal eu tinha aberto a boca já ela me perguntava com aquela inocência que só os velhos e as crianças têm, se eu estava com pressa. Eu respondi que não. Não estava com pressa. Falar com antigos habitantes desta zona que eu adoro, é como descobri-la de novo. Saber que determinada quinta pertence a não sei quem, que determinado morador da quinta tal vai à missa à Capela da Piedade, que dantes as pessoas de Nafarros iam de burro à festa de não sei onde, enriquece tanto a paisagem, que vale mais do que uma semana de exploração.
Disse-me sem mais rodeios que vive sozinha e que quando encontra alguém para conversar gosta de desabafar. Eu disse:
- Desabafe!
Contou-me todos os detalhes sobre os acontecimentos de Sintra e foi também falando do seu próprio passado, da morte trágica do marido, há muitos anos (julgo que quando eu nasci já a Tia Amélia era viúva), de como era a quinta onde hoje ainda habita, da decadência do seu “império”. Houve algumas frases que repetiu muitas vezes ao correr da conversa:
- O dinheiro não é tudo, é preciso é a gente conviver (querendo com isto dizer que é preciso darmo-nos bem uns com os outros).
- Eu tenho medo é de ter algum problema e ainda dar trabalho a alguém.
- O que é preciso é amor.
Tinha colocado um dos volumosos sacos pretos na beira do caminho e desfiava o seu rosário confortavelmente sentada sobre as hortaliças. Recomendou-me, maternal, que me abrigasse do vento, porque devia estar suado (assumindo erradamente que a bicicleta me serve para fazer desporto). Cumprimentou os condutores de todos os (poucos) automóveis que passaram entretanto e dizia: “É meu vizinho, gosto de me dar bem com ele. É preciso é a gente conviver, não é?”
Acompanhei-a à porta de casa e acabei por perder a vergonha e pedir-lhe autorização para a fotografar. Quando já estava mais “desabafada” falámos das quintas, dos caminhos, das igrejas. Admirou-se de eu conhecer tantos caminhos: “Ah, você conhece isto?”.
Falámos de personagens de Sintra, todos seus conhecidos, como o Zé Maria do Monte, que tomou conta da Torre do Relógio da Vila Velha de Sintra, até morrer, não há muitos anos.
Não sabia bem a idade, mas tinha nascido em 1931. “Acho que fiz 74 há dias, não é assim?”.
Por mim tinha lá ficado mais tempo, mas tinha um programa a que não podia faltar.

Voltei para casa um pouco estranho. Depois de ter estado mais de uma hora a ouvir falar uma desconhecida que me abordara para me contar tragédias, sentia-me confortado por ter conhecido a personagem e um pouco da sua história. Deve ser a isto que chamam catarse.

Pedalei menos do que tinha previsto, mas aprendi muito mais. Aqui vos deixo os retratos da Tia Amélia. Se a quiserem encontrar, passem pela praça da Estefânia: “Estou mesmo à entrada, para apanhar primeiro os clientes”. Vende flores e tem tanto para contar, que podia vender só histórias.







Se lá passarem mandem-lhe um beijinho meu.

Boa semana.

ZM

PS: lembrei-me das Histórias do Arco da Velha, da manamagana.

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Fotografias

>> sábado, maio 21, 2005

Um dos meus blogs favoritos - de resto presente na curta lista de recomendações do Arrumário - é o Flux+Mutability. Para quem gosta de fotografia é imperdível.
É ele quem nos recomenda este site francês, onde encontrei fotografias fabulosas:



Bom fim de semana.

ZM

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Janelas

>> sexta-feira, maio 20, 2005

Janelinha - Castelo Mendo - Janeiro 2005

Já que falamos de janelas, vou-vos contar uma história.
Toda a minha infância foi passada numa casa enorme, na periferia de Lisboa, cuja sala tinha uma espécie de janela sacada, com 3 janelões gigantescos. Essa janela era como um ecrã de cinema sobre a cidade de Lisboa e Monsanto. Tínhamos de lá uma vista como se dominássemos tudo. Víamos até o Cristo Rei (enquanto não encheram o horizonte longínquo com prédios). Era uma janela muito alta devido ao desnível existente entre a rua de entrada da casa e a sua oposta ("a rua de baixo"), além do que era perfeitamente virada a Sul. O primeiro plano da paisagem era a maior buganvília que vi na vida.
No Verão estas janelas estavam sempre abertas. Tinham uns daqueles estores à Sevilhana, de ripinhas de madeira, que se abriam para a frente, fazendo um toldo de sombra sem nos tirar a vista e o ar. Quando, no final da Primavera, a buganvília explodia numa mancha roxa, parecia entrar-nos dentro de casa.
Nessa altura, voltavam as andorinhas e invadiam-nos o telhado esvoaçando às dezenas por todo o nosso campo de visão. Os seus guinchos infantis preenchiam o espaço sonoro. As suas elegantes silhuetas pretas cortavam a jacto o azul intenso do céu, sem nunca se entrechocarem, coisa que me deixava fascinado.

Um dia levei lá a casa um amigo francês que ficou encantado com aquela janela. Disse que fazia parte da minha herança genética, que eu podia dar todas as voltas do mundo, mas nunca me esqueceria dela e do que de lá se via e ouvia. Na altura achei aquilo meio Zandinga...

Ontem, ao final do dia, atravessei um local cheio de andorinhas. De repente aqueles guinchos dispararam esta memória. De repente tive uma imensa nostalgia daquela janela da minha infância. De repente lembrei-me do piar agudo e brincalhão das andorinhas por sobre uma buganvília que transpirava cor. De repente lembrei-me do azul do céu à tardinha, quando nos juntávamos à janela (e éramos muitos) a brincar ao "onde é que está".

O meu amigo Eric sabia do que falava quando fez aquela previsão.

Sei que hão-de passar por aqui os únicos que entenderão em toda a profundidade o que acabo de descrever: os meus irmãos.

Hoje é a eles que dedico estas linhas.

ZM

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