A Feira do dia Val

>> domingo, Julho 29, 2007

A Madalena acha que a feira Medieval de Óbidos é a Feira do dia Val. Vamos lá todos os anos, porque é uma coisa que ela adora. Vem de lá sempre cheia de fantasias, aventuras e sonhos.
Este ano foi assim...







ZM

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Crocs of Love and Hate

>> sexta-feira, Julho 20, 2007

Bem, agora que o Garcia já vem a caminho do chão, com o K2 no bucho, aqui fica um post mais levezinho.



Há cerca de um ano, quando fui visitar a feira de equipamento de outdoor de Friedrichshafen, vi lá diversas novidades interessantes, entre as quais os actualmente famosos Crocs. Lá na feira vi várias pessoas com eles calçados e comecei a achar-lhes piada, até que deparámos com o stand de promoção da marca e explicaram-me a vantagem da coisa. Fiquei absolutamente encantado, mas não os comprei logo ali.

Na viagem de regresso para cá, na qual dormimos algures em França, entre não sei quantos camiões, reparei que os camionistas (alguns) utilizavam este calçado e isso deixou-me realmente convencido de que aquilo era uma coisa funcional.

Uns meses depois decidimos comprar um par de Crocs para cada membro da família (excepto para o Lourenço que ainda só estava em projecto) e mandámos vir directamente do site europeu. Só muito tempo depois viriam a vender-se em Portugal e só mais recentemente se deu o boom que os tornou uma moda a tocar o irritante.

Acho-os giros, super confortáveis, e muito higiénicos. Praticamente não os utilizo fora de casa, porque o objectivo era mesmo esse, tirar os sapatos da rua quando chego a casa e calçar qualquer coisa realmente confortável.

Isto vem a propósito de um blog em que tropecei, que achei divertidissimo:
I hate Crocs
Bem vistas as coisas funciona como publicidade, mas houve um argumento ao qual fiquei algo sensivel: é que dizem que o Bush também os usa! É pá, se ele os usa, deve haver alguma coisa realmente bimba nos Crocs que eu ainda não descobri :-)

Passem por lá e divirtam-se.

Quanto aos Crocs, experimentem e provavelmente nunca mais deixam de ter um par, nem que seja, como eu, para "andar por casa".

Bom fim-de-semana

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Summit ! July 20, 2007 4:36 pm local time.

Em rigorosa primeira mão para Portugal (passando a perna ao excelente blog do Aurélio Faria), informo que o João Garcia já conquistou o seu 9º cume da série de 14 a que se propôs.

Agora já só falta a descida. Mantenham as figas.

Mais informação em:

http://www.sharedsummits.com/

http://www.k2climb.net/

Stay tunned.

ZM

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Está quase, mas está difícil.

Neste ponto da expedição do João Garcia, não consigo pensar noutra coisa. Estou em pulgas.

Há pouco, em http://www.k2climb.net:

Tired climbers

The climbers left Camp 4 between 1 am and 3 am local time for the summit. C4, at anywhere from 7600 to 7900 meters on the Shoulder, is still a solid 16-22 hours from the summit.

5 teams - Russians, Korean men and ladies, Portuguese, one Iranian climber, Americans and Italians were sharing the few tents they have still standing on the ravaged higher camps, and moving according to a common strategy. Weather reports look good, clear and little wind. K2 however suffers a bit more wind coming from China to be added to the forecasted speeds, and the peak is also infamous for sudden local weather patterns.

Remember the climbers are pushing following several days of hard climbing in deep snow to upper camps. Imagine how incredibly tired they must be. Add to that the icy slope, the cold, wind and long hours ahead - and cross your fingers tonight.

Few summits on K2

Statistically, triumphs on K2 are few. Only since the start of the new Millenium, the peak has been left entirely without summits in 2002, 2003 and 2005 . And last year, only four people topped out - and only two of those without oxygen; Italian Nives Meroi and Romano Bennet on exactly the Abruzzi route the current teams are facing.

Relembro quem não saiba que o João Garcia escala sem oxigénio artificial.

Boa sorte!

ZM

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O K2 está a aquecer!

>> terça-feira, Julho 17, 2007

Depois de um épico relato de um passeio a ver montras, falemos agora de alpinismo (himalaísmo) a sério. O fantástico João Garcia está neste momento a viver momentos de grande agitação já bem acima dos 6.000m de altitude, naquela que é provavelmente a mais dura das grandes montanhas do mundo: o K2.

Aqui deixo, mais uma vez o link do blog do Aurélio Faria, da SIC, que está em permanente actualização.

O cume está "próximo". Continuamos a fazer figas para que o João lá chegue e sobretudo para que regresse inteiro.

ZM

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Pirinéus 2007 - parte 2

>> sexta-feira, Julho 13, 2007

Nota prévia: antes de partir para a segunda parte da aventura carreguei a bateria da máquina compacta digital. Depois guardei o carregador na mochila que ficou no carro.
Mais tarde dar-me-ia conta de que a bateria carregada tinha ficado dentro do carregador. A bateria que estava na máquina não me durou mais do que 5 ou 6 fotos. Por isso quase todas as fotos deste post são digitalizações de slides. Lamento a pouca qualidade das imagens, embora ache que valem a pena.
Um dia destes marcamos uma apresentação destes slides "ao vivo" e a cores. Os leitores mais interessados poderão também assitir.

Passemos à história (que vai ser longa):

A conquista do Vignemale pela via Príncipe da La Moskowa tinha-nos enchido a barriga (a das pernas, claro está, que ficou cheia de ácido láctico). Dormimos uma noite no camping San Nicolás, ainda sob o efeito da imensa ventania, que me foi esmigalhando a tenda sobre a cara durante quase toda a noite. Cheguei a temer que fossemos terminar a noite nos sanitários do camping, depois de termos a tenda em trapos, mas acabámos por acordar de um sono tranquilo, já o sol se erguera, despertados pelos chocalhos das vacas que pastavam encostadas à tenda.



Voltámos a preparar as mochilas para uma actividade de 3 dias, bebemos o café que não teríamos até ao nosso regresso a este ponto, e começámos calmamente a percorrer o mesmo caminho que tínhamos descido na véspera.



O nosso destino, desta vez era o Puerto de Bujaruelo ou de Gavarnie, que se situa a 2.273m de altitude (partíamos de 1.338m). Apenas os primeiros 300m de desnível são empinados, o restante é um belíssimo vale de onde íamos admirando os vales do Ara, de Otal e do Bujaruelo, à medida que ganhávamos altura.







Chegados ao Puerto, fizemos o nosso breve contacto telefónico por SMS (só nestas passagens de montanha íamos tendo rede de telemóvel) e prosseguimos o percurso até ao refúgio de Sarradets, também conhecido por refúgio da Brecha de Rolando.





Este refúgio é uma caixa de surpresas, umas boas outras péssimas. Está numa localização fantástica, com uma vista das mais belas que alguma vez vi de um refúgio e só o vemos quando vencemos o último colo, após atravessarmos um curto glaciar coberto de neve. Do terraço do refúgio avista-se o circo de Gavarnie, a Brecha de Rolando e toda a crista de cumes que leva até à zona do Monte Perdido.





O nosso objectivo para o dia seguinte era ambicioso: pretendíamos passar a brecha para o lado espanhol (desde o Puerto de Bujaruelo que estávamos em território francês) seguir o percurso mais próximo da cumeada até ao Piton SW do Cilindro de Marboré (3.325m), escalar este último, descer de novo ao Lago Gelado e subir o Monte Perdido (3.355m).



Eu estava ansioso por conhecer o tal percurso, que segue sempre muito próximo dos 3.000m de altitude, e por escalar o Cilindro, porque tem uma trepada de rocha e porque supunha que teria vistas magníficas sobre o Monte Perdido. A ascensão do Monte Perdido tinha ficado agendada porque o David nunca a tinha feito, mas para mim, apesar de repetente, era a cereja no cimo do bolo, porque fiquei completamente encantado com esta montanha. Continuo a achar que é a mais bela montanha que subi até hoje.



Passámos todo o resto desse dia a apanhar sol no terraço do refúgio e a apreciar as lindas figuras que faziam as pessoas que desciam da Brecha (sobretudo os ingleses e os americanos), algumas aos trambolhões, outras em sku, outras muito devagarinho, como se um escorregão fosse inevitavelmente matá-las. Precisávamos de poupar as pernas para o dia seguinte, por isso limitámo-nos a jiboiar e cortar na casaca de quem desfilava no nosso campo de visão.
Partilhámos a mesa do jantar com uns catalães que tinham chegado ao mesmo tempo que nós e que foram directamente ao Taillón (3.144m), sem crampons. Não tinham trazido equipamento de neve porque supunham que não iriam encontrá-la.
O ambiente dos refúgios de montanha é muito engraçado, porque estamos todos ali com objectivos semelhantes e vamos acabando por falar todos uns com os outros, fornecendo informações sobre o que fizemos ou recolhendo informações sobre o que tencionamos fazer.
Numa mesa ao lado da nossa estavam uns franceses a falar do Cilindro de Marboré, pelo que entabulámos conversa em busca de informações. Soubemos que iam também escalar o Perdido e o Cilindro no dia seguinte, por esta ordem (nós faríamos o mesmo pela ordem inversa). A diferença é que eles tencionavam retornar ao Sarradets e nós desceríamos para o Goriz, que é o de acesso à via normal do Monte Perdido, no final do Vale de Ordesa. Por essa razão eles teriam que sair mais cedo, mas foi uma troca de impressões muito produtiva e fiquei mais descansado em relação à trepada final do Cilindro, descrita por eles como muito simples.
Mal sabíamos nós que na manhã seguinte iríamos desesperar à espera que alguém se dignasse receber o nosso pagamento para que pudéssemos finalmente empreender a nossa marcha.
Quando nessa noite nos perguntaram a que horas pretendíamos o petit déjeuner dissemos que tínhamos o nosso próprio petit déjeuner (o tal cocktail de que falei no post anterior). Nessa altura devíamos ter sido informados de que era melhor tratar já do pagamento da estadia porque naquele refúgio, ao contrário do que acontece em todos os outros que conheço, o pessoal passa a manhã na cama.
Todos sabemos que os refúgios de montanha não são hotéis, nem sequer de uma estrela, mas há detalhes que são muito simples e que fazem toda a diferença entre um bom e um mau refúgio. Em quase todos eles o de Sarradets tem que ser classificado como um mau refúgio. Há apenas 2 cagadeiras, e ambas despejam os respectivos dejectos directamente numa encosta da montanha. Os beliches em que dormimos são em 3 níveis – nós ficámos no mais alto – mas o espaço não é distribuído de forma equitativa, em particular o nível que nos calhou na rifa é tão junto ao tecto que não permite que nos sentemos na cama. Se alguém acordar assustado e se erguer rapidamente terá que ser evacuado de helicóptero com um traumatismo craniano. De resto todo o refúgio tem um ar abandonado, sujo, mal mantido. A somar à má impressão com que já estávamos, na manhã seguinte, quando pretendíamos sair, por volta das 6:30h, não havia ninguém disponível para receber o pagamento da estadia e nos devolver o cartão de federados que nos faria falta no refúgio seguinte. Como não gostam de se levantar cedo, os responsáveis deste refúgio perguntam às pessoas a que horas pretendem sair para deixarem os pequenos-almoços prontos e cada um que se oriente. Claro que, já que estávamos ali a perder tempo à espera, aproveitámos para beber uma taça de café cada um à conta dos preguiçosos.
Acabámos por só conseguir sair já depois das 07:00h da manhã, com mais de meia hora de atraso sobre o horário previsto.
Já tínhamos tudo pronto, bastou calçar os crampons e iniciar a subida em direcção à Brecha.





As nuvens formavam um lençol abaixo da altitude a que estávamos, que enchia todo o Circo de Gavarnie. Um daqueles espectáculos que compensam qualquer sacrifício.



A aproximação à Brecha de Rolando é relativamente simples e cada vez vamos ficando mais embasbacados com a beleza daquela formação rochosa. Só quando passamos por ela nos apercebemos de quão finas são as lâminas de rocha de cada lado da brecha, com cerca de 100m de altura e apenas alguns metros de espessura.



Nós sabíamos que tínhamos que virar à esquerda logo após a brecha e seguir encostados à rocha. Um pouco adiante tínhamos uma passagem com correntes, chamada o Paso de Los Sarrios, que leva ao Cuello de Los Sarrios. Depois o caminho segue junto à crista de cumes, mas não tínhamos bem a certeza por onde. Seguimos um rasto de crampons recentes, que supúnhamos que fosse dos 2 franceses que tinham conseguido sair a horas.
Lembro-me de ter visto um “hito” (os montes de calhaus que marcam os percursos na montanha) à esquerda do caminho que seguíamos, e de o ter achado fora de sítio. Bastante mais adiante no caminho iríamos aperceber-nos que esse “hito” nos chamava na sua direcção, mas nós, cegos, deixámo-nos conduzir por uma massa de rocha que nos fez perder perto de 2 horas para retomarmos o caminho original.
Lembrava-me de falar com o Daniel (do Montanhacima) sobre este caminho e de ele dizer que havia que vencer vários socalcos para conseguirmos manter-nos na cumeada, mas nós não voltámos a encontrar nenhum destes socalcos após o Paso de Los Sarrios. Muito tempo depois do “hito” ignorado reparei que o meu altímetro indicava quase 300m menos do que devia. Rapidamente se tornou evidente que nos tínhamos enganado e fomos sendo empurrados pela Faja Roya (uma enorme falha rochosa, que não vimos na carta) numa direcção que não pretendíamos.
Após algumas imprecações que não posso reproduzir aqui, decidi começar a escalar a tal Faja em busca do rumo certo. Felizmente conseguimos encontrar uma zona em que após 2 trepadas em rocha e mais um bom bocado de subida já em neve conseguimos finalmente voltar ao caminho que pretendíamos seguir, quase 300m acima de onde estávamos antes. Isto teve duas consequências negativas, uma é que perdemos mais de 2 horas, incluindo o atraso da saída, e a outra é que perdemos a vista para o Circo de Gavarnie que se tem da crista de cumes e que era uma das motivações da escolha deste percurso.
Entretanto, quando finalmente avistámos o Cilindro de Marboré já não tivemos pachorra para dar a volta pelo seu lado Sul e subir o corredor que leva do Lago Gelado ao ombro entre o Cilindro e o Piton SW.



Decidimos subir o corredor do lado poente, que nos levava directamente do nosso percurso ao tal ombro, pese embora o facto de este corredor ter provavelmente quase o dobro da extensão. Como já disse, nos corredores é que eu me safo, por isso, uma vez mais, fui o primeiro a arribar ao pequeno colo entre o Cilindro e o Piton.
O David, que não gosta muito de alturas, estava apreensivo com a posterior descida, sobretudo (imagino) porque a visibilidade para o lado do Lago Gelado e do Monte Perdido começou a ficar totalmente tapada com nuvens a partir do exacto momento em que chegámos ao colo, transformando o corredor que teríamos que descer numa espécie de tobogã da Alice no País das Maravilhas, cujo fim se perdia algures no espaço.
Soubemos mais tarde que, com uma surpreendente e cirúrgica dose de azar, tínhamos perdido totalmente a vista entre o Cilindro e o Perdido precisamente por nos termos atrasado as tais 2 horas. É que ao longo de toda a semana, exactamente às 13:00h as nuvens subiam do Vale de Ordesa e tapavam o Perdido e vizinhança. Se tivéssemos chegado a horas, as nuvens já só nos apanhavam na descida para o refúgio de Goriz, assim voltámos a ficar sem vista a partir dos cumes.



A subida ao Cilindro a partir do ombro faz-se sem crampons. Começa com uma trepada de rocha, que se tornou muito simples porque já lá estava uma corda fixa e bastou utilizarmos uns bloqueadores para o fazermos em segurança. Mais adiante houve outros passos de trepada, de que ninguém tinha falado antes, mas que se revelariam assustadores, embora fáceis tecnicamente.



Achei o cume propriamente dito bastante mais longe do ombro do que supunha, mas acabámos por lá chegar. Estávamos novamente a 3.325m de altitude, com alguma vista para o lado do Vignemale (que continuava embrulhado em nuvens), mas com a vista completamente tapada para o lado Este, para o Balcón de Pineta, Circo de Pineta e para o próprio Monte Perdido. Tive vontade de enfiar o piolet na cabeça dos imbecis do Sarradets que nos tinham feito perder tanto tempo na saída (a outra pioletada tinha que ser na minha própria cabeça por me ter perdido).





Enfim, algo desconsolados lá voltámos ao colo onde tínhamos deixado as mochilas e os crampons.
Fiz a descida para o Lago Gelado em passo de corrida, no meio do nevoeiro, e sentei-me calmamente à espera do David que vinha mais acagaçado.
Tínhamos ficado de decidir se subiríamos o Perdido ou não, mas eu, quando me apanhei no Lago Gelado a olhar para o corredor que leva ao seu cume, comecei a tremer como se houvesse uma sereia a cantar lá no alto. Pensei que era profundamente estúpido estar cheio de vontade de subir uma montanha que já tinha averbado na caderneta e de cujo cume não teria qualquer vista, mas o frémito que me invadia as pernas era absolutamente incontrolável.
Quando o David chegou junto de mim, perguntou com um ar apreensivo porque estava eu de capacete e eu olhei para a Cuspideira e disse que era para subir o Perdido. Tivemos ali um debate, com muitas forças opostas, em que eu pretendia que ele subisse, ele não estava para aí virado, mas dentro de mim havia alguma coisa magnética, muito forte, que não me deixou virar costas ao cume. Acabámos por decidir que ele ficava no Lago Gelado e eu ia lá acima e já vinha.



Levei apenas o piolet, a máquina fotográfica, umas barritas para o caminho e muita, muita "ilusion". Fui subindo, sozinho, pensando o quanto é sem sentido esta atracção pelos cumes. Por mais que pense nisso, não consigo compreender este feitiço que nos apaixona pelas montanhas, mas eu ia claramente a caminho de um encontro amoroso.
Demorei cerca de 50 minutos a chegar ao cume, tendo-me cruzado quase no início com um grupo que descia. Estou portanto condenado a subir sozinho ao Perdido. Como já disse, apesar de ser a única montanha que já subi 2 vezes, considero-a a mais bela de todas. Em lugar de saciar-me, cada vez que lá vou mais me apetece voltar. Enquanto estive no cume fui tendo umas nesgas de vista sobre a zona da Pineta, já que do lado do Cilindro continuava a não se ver nada. Acho que comecei aí a pensar na próxima via por onde voltarei a subir este monte. Felizmente há ainda muitas por fazer.
Julgo que não demorei mais do que 10 minutos a descer até junto do David, que entretanto tinha felizmente enchido os cantis com água. Eu vinha leve e literalmente a correr, sobretudo desde que passei a Cuspideira. Sentia-me verdadeiramente preenchido. Todos os objectivos propostos estavam cumpridos. Restava chegar com saúde ao refúgio de Goriz.



Devemos ter demorado perto de hora e meia a chegar ao Goriz. Depois da experiência negativa do Sarradets, este refúgio e os seus simpatiquíssimos guardas pareciam-nos um verdadeiro luxo.
Na manhã seguinte, após pagarmos a estadia, já não nos sobrava dinheiro vivo para trazer umas T-shirts (e o Multibanco estava avariado :-) ) pelo que o Ibán, o responsável do refúgio, nos propôs que levássemos as t-shirts e deixávamos-lhe o pagamento no refúgio de Bujaruelo, após termos levantado dinheiro em Torla. Este tipo de atitude deixa-me esmagado, por isso junto com o dinheiro deixámos-lhe uma garrafinha de vinho branco português, igual à que tínhamos deixado submersa no rio Ara à nossa espera.
A derradeira jornada de caminho que tínhamos pela frente até chegarmos ao carro viria a revelar-se ainda um enorme esforço, embora com algumas experiências agradáveis, mas os objectivos estavam todos cumpridos e isso dava-nos outro alento.
Tínhamos decidido regressar a Torla (para levantar dinheiro) por um caminho pouco convencional, mas que passava numa zona que queríamos conhecer: o Circo de Cotatuero, as suas respectivas clavijas e a visão da impressionante Punta Gallinero, onde tivemos a sorte de ver gente a escalar. O refúgio de Goriz fica a 2.200m de altitude. Foi de lá que saímos em direcção ao Cuello de Millaris (2.457m), de onde teríamos uma vista magnífica de toda a crista que não tínhamos conseguido seguir no dia anterior, bem como de toda a trepada que tivemos que fazer para corrigir o engano.



Nesse ponto virámos à esquerda, na direcção do Circo de Cotatuero, que demoraríamos ainda algumas horas a atingir. Nesta zona o Parque de Ordesa tem obstáculos quase intransponíveis. É mesmo preciso encontrar os percursos marcados com "hitos", caso contrário desembocamos no alto de uma falésia e não temos meio de chegar ao próximo "hito", que vemos lá ao longe.



Acabámos por ter que percorrer uma linha da água (talvez deva chamar-lhe uma garganta) que viria a revelar-se algo complicada para as nossas pernas massacradas por 5 dias seguidos de sobe e desce e para os nosso pés já quase em carne viva.



Acabámos por atingir a parte superior do Circo de Cotatuero, com o que isso implica de êxtase. Ficámos quase sem respiração perante a vista do Vale de Ordesa, cerca de 800m abaixo. O Circo é um anfiteatro de rocha vertical, que tem de um lado o famoso Gallinero (uma das míticas paredes de escalada de Ordesa) e do outro a negra falésia da Fraucata.



Para vencer este obstáculo é necessário começar por descer pelas tais Clavijas, que são uns enormes ferros cravados na rocha e que não são de forma nenhuma próprios para cardíacos. Mais tarde disseram-nos que este local é palco de muitos dos acidentes que se dão nesta zona. Na realidade é possível passar tudo aquilo com segurança, porque estão lá cabos de aço para isso, mas a maioria dos turistas que ali passa nem sabe o que é um arnês. Voltámos a ficar surpreendidos com o tipo de turistas com quem nos cruzámos acima das Clavijas e que eu juraria que não seriam capazes de lá passar, mas o facto é que estavam ali e não deverão ter chegado de helicóptero.



Abaixo das Clavijas há ainda um longo carreiro que serpenteia encosta abaixo para vencer os 600 ou 700m de desnível até ao fundo do Vale de Ordesa. Depois de chegarmos à Pradera (o local onde as pessoas deixam os carros) tirei o meu chapéu aos casais de namorados e de gordos que vimos acima daquele obstáculo impressionante.



Nessa altura já não nos apetecia muito continuar a caminhar. Tínhamos feito tudo o que planeáramos, dentro dos prazos previstos. Começámos a ansiar por uma boleia, mas àquela hora todos os carros subiam a caminho do estacionamento e não de regresso a casa. Finalmente passou um carro com matrícula portuguesa – o único que vimos naquelas paragens em todo o tempo – e o David pediu boleia. Dispuseram-se logo a parar, mas claro que os mandámos seguir porque iam no sentido contrário. Então comentámos que, sendo portugueses, estariam de regresso dentro de minutos e pouco depois isso de facto aconteceu. Desta vez pararam mesmo, mas qual não é o nosso espanto quando percebemos que se tratava de Holandeses! Era um pai e um filho que vivem em Portugal e que tinham subido à Pradera para reconhecerem o local onde deixariam o carro no dia seguinte para fazerem um trek de 5 dias pelo Parque. Felizmente deram-nos boleia para Torla.
Abancámos no café, retirámos as botas dos pés e desatámos a comer bocadillos e a beber Coca-cola. Depois fomos levantar dinheiro para deixar como pagamento das T-shirts e empreendemos a longa caminhada de volta ao nosso ponto de partida. Tenho que confessar que aqueles 9Km que nos separavam do Bujaruelo foram uma verdadeira tortura, mas o banho quente e o Caril de Tofú com cogumelos, regado com o branco refrescado no leito do Ara, foram o merecido prémio para a nossa mais longa e divertida aventura nas montanhas. Acabámos a noite à conversa com os guardas do refúgio de Bujaruelo, na companhia de umas cañas fresquinhas.







Não fosse o facto de o tempo nos ter pregado algumas partidas, traria na memória da retina as mais fantásticas paisagens que já percorri.
Assim, vou ter que lá voltar para o ano…

ZM

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Pirinéus 2007 - parte 1 (revista e aumentada)

>> terça-feira, Julho 10, 2007

Quando, em Abril de 2006, estive pela primeira vez no vale de Ordesa e subi ao seu cume – o Monte Perdido (3.355m) – fiquei irremediavelmente apaixonado pelo Parque e decidi que haveria de lá voltar assim que fosse possível, com o pretexto de pisar mais alguns dos seus cumes de mais de 3.000m de altitude, mas igualmente interessado em conhecer os inúmeros percursos que serpenteiam no interior do Parque.

Tendo escolhido para companheiro desta aventura um atleta de triatlo (David Vaz), e tendo eu próprio colocado grande empenho na minha preparação física, quando chegámos ao momento de decidir o que queríamos fazer acabámos por forçar um pouco a barra e seleccionámos um programa tão exigente fisicamente quanto apertado em termos de calendário.

Em linhas gerais o objectivo era montarmos o quartel-general no parque de campismo San Nicolas, no Bujaruelo, no final do vale com o mesmo nome e desde aí empreendermos duas saídas de três dias cada, que nos fariam passar pelos cumes do Vignemale, Cilindro de Marboré e Monte Perdido. Os troços de ligação eram um extra, como intervalos turísticos entre objectivos desportivos, e constituíam uma verdadeira surpresa, uma vez que desconhecíamos com rigor os tempos e esforços que envolveriam.

A partida de Lisboa revestiu-se de uma pesada dose de stress, já que ambos estávamos embrulhados numa teia de assuntos por resolver que quase nos faria desistir. Finalmente, embora com algum atraso, passámos finalmente a Vasco da Gama (que nome sugestivo para quem parte em busca de aventura!), respirámos fundo e começámos a engolir asfalto, em direcção a uma das mais belas regiões dos Pirinéus. Dormimos a primeira noite já em Calatayud, perto de Zaragoza, e voltámos a seguir viagem em direcção a Torla, no dia seguinte. Este seria o último contacto que teríamos com a civilização durante os próximos dias e não se pode considerar uma povoação particularmente cosmopolita. Enfim, sempre tem Multibanco e rede de telemóvel, luxos que não teríamos em qualquer outro dos locais por onde andámos nos dias sucessivos.
Comemos um bocadillo com queso, bebemos a Coca-cola da praxe, levantámos dinheiro para pagar os refúgios e telefonámos às respectivas famílias para os prevenir da nossa futura ausência de contacto.



Minutos depois estaríamos a entrar no vale de Bujaruelo, onde se situa o camping San Nicolás, perdendo de imediato contacto com as redes de telemóvel. É um local paradisíaco para quem aprecia montanhas. Seria este o nosso quartel-general, mas naquele dia nem sequer montámos tenda. Limitámo-nos a preparar as mochilas que levaríamos para os próximos 2 dias, deixámos o carro estacionado junto ao refúgio e iniciámos a caminhada que nos levaria ao bivaque com que inaugurámos a estadia naquelas montanhas. O Bujaruelo situa-se a 1.338m de altitude e o nosso objectivo era ir dormir a um pequeno refúgio livre, chamado Cabaña de Cerbillonar, que se situa em pleno Vale do Ara, a cerca de 1.800m de altitude. Tínhamos portanto cerca de 500m de desnível a vencer nesse fim de dia. Percorremos uma parte do famoso GR11 que atravessa todo esse belíssimo vale e chegámos ao nosso “hotel” em cerca de 2 horas.



No momento em que chegámos à Cabaña ainda nos restavam algumas horas de luz, além disso havia um par de velhotes que iria igualmente pernoitar naquele lugar, pelo que decidimos iniciar a subida da via que pretendíamos fazer e dormir um pouco mais acima nalguma plataforma que encontrássemos.

O Vignemale é considerado francês, embora nós tenhamos subido pelo lado espanhol. Crê-se que terá sido conquistado pela primeira vez em Agosto de 1792, pelo lado “normal”, que é a partir da barragem de Ossoue (mas não necessariamente pela via que hoje se considera a normal), subindo o glaciar, que naqueles tempos estaria muito mais espesso e perigoso do que hoje. Em 1837 Cazaux e Guillembet conquistariam o Pique Longue quase por acaso e desceram para o Vale do Ara, descobrindo assim uma via sem gelo. Abria-se aqui uma possibilidade comercial, pelo que decidiram vender a expedição a Ann Lister, que a subiu pela primeira vez em Agosto de 1838. Uns dias mais tarde voltaram a vendê-la como “primeira” ao grupo do príncipe de la Moskowa, que acabou por dar nome à via. Parece que a trafulhice acabou nos tribunais, mas Ann Lister ficaria com menos glória dando nome apenas ao Collado Lady Lister por onde nós próprios chegaríamos ao glaciar de Ossoue. A via, essa ficou para sempre com o nome Príncipe de La Moskowa. Em 1861, Henry Russell conseguiria passar o glaciar de Ossoue, em 1870 subiria a montanha pelo corredor de Cerbillonar, muito próximo da via que fizemos. Em 1880 esta mesma personagem, agora já claramente enfeitiçada pela montanha, começou a querer dormir nela. Escavou várias grutas a que hoje se chamam grutas del Cerbillonar (bem no alto da montanha) e Bellevue (estas no local onde na altura terminava o glaciar, umas centenas de metros abaixo do limite actual). Em 1989 a Comission Syndicale de Barèges outorgava-lhe uma concessão sobre o maciço, por 100 anos, tornando-o definitivamente o Senhor do Vignemale.

A via que escolhemos é uma das poucas que existem do lado espanhol desta montanha (o lado Sul) e é muito longa e pouco frequentada. Desde a cabaña de Cerbillonar são precisos vencer 1.500m de desnível, por isso, tudo o que subíssemos naquele dia, ou seja na véspera da ascensão propriamente dita, já nos pouparia algum esforço no dia seguinte. Acabámos por subir cerca de 200m e decidimos pernoitar na coisa mais plana que conseguimos encontrar, ou seja um pedaço de terreno cuja planura estava mais próxima de uma montanha russa do que de uma mesa de bilhar. Jantámos uma deliciosa refeição liofilizada da Decathlon, bebemos muita água (tanta que na manhã seguinte teríamos que andar a encher garrafas num dos inúmeros ribeiros que escorrem por aquela vertente – água mais pura não há), enfiámos os sacos de dormir dentro de uns sacos impermeáveis chamados sacos de bivaque, escorámos o corpo com pedras para não rebolar pela encosta abaixo e passámos uma noite divertida a tentar manter o equilíbrio. Fui acordando de vez em quando, mas posso dizer que dormi bem (dentro do género). Da última vez que abri os olhos, já a luz da aurora começava a iluminar os cumes, reparei com alguma tristeza que as nuvens tinham enchido o céu. De um momento para o outro, como se alguém lhe tivesse pegado fogo.



Comemos o nosso cocktail de pequeno-almoço, que se trata de uma mistura de Corn Flakes com Cerelac, numa proporção estudada cientificamente para dispensar o leite. Assim, basta juntar água quente e temos uma bela papa pronta a comer. De seguida empacotámos tudo outra vez nas mochilas e começámos a ascensão.
Conforme íamos subindo o nevoeiro ia-se adensando. As referências que tínhamos da via não passavam de manchas cinzentas, o que retirava alguma beleza à subida ao mesmo tempo que acrescentava perigo de nos perdermos. Comecei a pensar que era a primeira vez que subia uma montanha nos Pirinéus sem encontrar vivalma pelo caminho. No preciso momento em que este pensamento se dissipava oiço um som “artificial”. Era, nem mais nem menos, um outro alpinista que caminhava na nossa direcção. No meio do nevoeiro acabámos por nos juntar e trocar impressões sobre a via. O outro alpinista era francês, estava sozinho (ir sozinho para aquela via com as condições climatéricas que entretanto surgiram é de Homem com H grande) e também tinha bivacado ali por perto. Comparámos os valores dos altímetros, as cartas topográficas e as descrições que tínhamos da via. Sabíamos que à altitude a que estávamos (cerca de 2.700m) deveríamos encontrar um corredor à nossa esquerda, mas como não tínhamos a certeza, devido ao nevoeiro, tivemos que subir mais uns metros até batermos na imensa massa de rocha a que chamam Marmolera. Voltámos a descer e tomámos o único corredor que conseguíamos ver. Nenhum de nós 3 fazia ideia se era o bom corredor ou não. Um pouco acima, na neve dura encontrámos marcas de um único par de crampons (as ferramentas de bicos que colocamos nas botas para podermos andar sobre a neve com segurança), provavelmente (esperávamos nós) de alguém que passara uns dias antes e que saberia o que estava a fazer. Embora tivéssemos connosco um alpinista solitário, que ignorava por onde decorria o corredor da Moskowa, intuímos que aquele que nos tinha precedido era um alpinista experimentado e conhecedor.
Seguimos a única pista que tínhamos e fomos parar a uma curta chaminé de rocha, difícil de vencer com aquelas botas e com mochila às costas. Ultrapassada essa chaminé (em que acabámos por não usar cordas nem qualquer outro equipamento) voltámos a colocar os crampons e seguimos a tal pista que subia por um extenso e empinado corredor de neve.
Conforme íamos ganhando altitude sentíamos o vento cada vez mais intenso, até que desembocámos no Collado Lady Lyster, a cerca de 3.200m de altitude e parecia que se tinham aberto todas as janelas do mundo. Ou talvez alguém fizesse anos e aquele fosse um sopro cósmico no final dos parabéns a você. O melhor terreno que me podem dar em montanha são os corredores de neve. Parece que fiz aquilo toda a vida. Por essa razão fui o primeiro a sentar-me no Collado, no meio do vendaval, meio a rir, meio a chorar, não sei se de alegria por ter chegado ao glaciar d’Ossue (já quase o cume da montanha) ou se de tristeza por não ver mais que uns escassos 10 ou 15 metros de distância.
Tínhamos na ideia, se o tempo estivesse de feição, seguir pela crista até ao Pique Longue (que é o cume do Vignemale, com 3.298m de altitude), juntando assim à caderneta mais 3 cumes com mais de 3.000m. Mas o tempo definitivamente não estava para graças e decidimos seguir um “carreiro” que nos levava na direcção onde supúnhamos que estaria o desejado cume. Um pouco adiante encontrámos uma verdadeira excursão de trombalazanas (expressão do David), todos ligados por uma corda e conduzidos por um velho guia francês. Iam ver as famosas grutas do Russell,. Claro que esta pandilha tinha subido pela via normal, que não sendo propriamente um passeio, comparada com o que tínhamos acabado de fazer é perfeitamente acessível. No entanto não posso deixar de destacar o tipo de gente que se vê por lá, no alto das montanhas. Há de tudo, velhos e novos, magros e gordos, experientes e saloios, mas o facto é que estão lá e não nos centros comercias ou a praticar o lusitano mappling.
O guia deu-nos algumas dicas sobre como encontrar a trepada final para o cume da montanha e continuámos a subida. Quando cheguei à crista, que leva finalmente ao cume, o vento tinha-se tornado um túnel de testes da Ferrari e no meio daquela colossal ventania começo a ouvir um daqueles “Merde!” ditos com total convicção. Era o nosso companheiro gaulês que praguejava por ter deixado voar a carta, o guia e o altímetro. Pela minha parte, tendo em conta a intensidade do vento, não sei como não voei eu próprio.
Lá fomos cuidadosamente até ao Pique Longue, tirámos as fotos da praxe e regressámos ao glaciar tão depressa quanto possível.
O tempo estava tão radical que não consegui fazer fotos com a máquina digital compacta. Apenas tirei uns slides. Aqui ficam as fotos do cume, digitalizadas a partir dos slides. A qualidade não é das melhores, mas foi o que se arranjou.


Eu e o David, no cume do Vignemale


O David e o Emanuel (o nosso companheiro temporário)



A "destrepada" do cume para o glaciar

Dizem que a vista do cume do Vignemale é das mais belas que se podem ter nos Pirinéus, mas é raro, muito raro ter essa sorte. Eu acho que aquela montanha é mimada e gosta de ter gente em cima, então nunca deixa ver a vista para o pessoal ter que voltar. A verdade é que, por mim, já estou na fila dos candidatos a repetentes. Desta vez não vi rigorosamente nada além de uma espessa mancha de nevoeiro e uma ventania que não julgava possível, mas ela não há-de ficar a rir-se. Garanto que voltarei.
Finalmente descemos os 3 pela via normal, seguindo os rastos que se vêem sobre o gelo do glaciar. No meio do nevoeiro acabámos por ir parar demasiado à direita, o que nos obrigou a mais algumas manobras para conseguirmos chegar ao caminho correcto. Um pouco mais abaixo, já fora do glaciar, o nosso caminho e o do Emanuel (o nosso companheiro temporário) separaram-se. Nós seguimos a meia encosta na direcção do refúgio de Baysselance – o mais alto dos Pirinéus, a 2.651m de altitude – e o Emanuel desceu o vale na direcção da barragem de Ossoue, onde tinha deixado o carro.



Nessa noite fomos brindados com a maior ventania que presenciei em toda a vida. Fora do refúgio o ar movia-se com uma velocidade, uma energia e um rugido que faziam temer pela segurança do nosso alojamento.



Só pela manhã o vento se acalmaria, deixando finalmente entrever por entre as nuvens restantes, um pouco do glaciar e, a espaços, o próprio Pique Longue.







Descemos calmamente até à barragem de Ossoue (1.830m de altitude), onde voltaríamos a encontrar o Emanuel, que seguiria de carro para Gavarnie, de onde voltaria a entrar nas montanhas, enquanto nós seguimos em direcção ao Puerto de Bernatuara (2.238m de altitude), a caminho do Bujaruelo. Esta passagem de montanha é palco de uma acção tradicional que deve ser um verdadeiro espectáculo: La Cita Del Paso de Las Vacas por La Bernatuara. Para não perderem os direitos sobre os pastos de Ossoue, os ganadeiros do vale de Broto fazem subir as vacas todos os anos, até à referida passagem fronteiriça. Depois bebem uns copos na companhia dos colegas do outro lado. Dizem que é impressionante ver centenas de vacas subirem os cerca de 1.000m de desnível que levam do Bujaruelo ao Puerto de Bernatuara. Quem visite estes pastos a partir do final de Julho encontrará gado espanhol a pastar erva francesa.

Nós tivemos que subir todo o Vale de La Canau (500m de desnível), olhando regularmente por cima dos ombros para nos despedirmos do encantador Vignemale, à medida que nos aproximávamos da cabeceira do vale.








Na passagem do Puerto somos brindados com a belíssima vista do lago de Bernatuara, a 2.300m de altitude e, logo depois, do barranco de Sandaruelo que nos guiará até ao Bujaruelo, cerca de 1.000m abaixo.





Já bem no fim da jornada, quando as pernas já não estão para grandes graças, perdemos o caminho e fomos dar ao lado errado do Barranco de Lapazosa, o que nos obrigou a subir de novo para voltarmos a encontrar o percurso. Faltavam “apenas”cerca de 350m de desnível, que custaram mais do que todo o resto do percurso.



De volta ao Bujaruelo, escolhemos um pedaço de camping que não tivesse muita bosta de vaca e montámos a tenda para essa noite. Cozinhámos uma deliciosa bolonhesa de seitan, devidamente regada com vinho tinto alentejano e comemorámos assim o sucesso da primeira parte da nossa semana pirenaica.







Na manhã seguinte voltámos a preparar as mochilas para 3 dias de diáspora, submergimos no rio Ara, sob grandes pedregulhos, uma garrafa de vinho branco com que comemoraríamos o sucesso da segunda parte, quando voltássemos de novo a este local.
Arrumámos tudo novamente dentro do carro, incluindo a tenda, despedimo-nos do refúgio com uma saborosa bica e fizemo-nos de novo ao caminho, na direcção do Puerto de Bujaruelo.

Dentro de dias teremos aqui a segunda parte desta épica viagem :-)

Se for caso disso, vão passando por cá.

ZM

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Sobre este blog

Somos Sintrenses por adopção, daí o frequente interesse por temas relacionados com Sintra. Actualmente, vivemos na ilha Terceira, nos Açores, mais propriamente na cidade de Angra do Heroísmo, o que transformou este blog, de alguma forma, num canal privilegiado para ir dando a conhecer como é a vida no meio do Atlântico.

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